Assisti o jogo lá em Caçapava do Sul, onde fui para festejar os noventa anos da minha querida sogra, dona Percina Teixeira de Souza, comemorada no CTG Clareira da Mata (um dos raros CTGs negros – mas não racista – do nosso Rio Grande).

Em Caçapava, metade da população é colorada, a outra metade é gremista e 98,7 por cento torcem também pelo time local. O mesmo acontece na família da minha companheira, dividida apenas pelas paixões futebolísticas. Lá vi um fenômeno estranho: os gremistas, obviamente, torciam pelo Nóia (na verdade, contra o Inter), mas os colorados não estavam aflitos diante da possibilidade iminente da derrota que acabou se confirmando. Diziam que estava na hora de um time pequeno, do interior, desbancar a dupla GreNal e, além disto, que o Novo Hamburgo merecia o campeonato.

Merecimento! Lembrei da velha história da Meritocracia e refleti sobre como é difícil esta coisa funcionar de fato. Lá pelas tantas, um dos comentaristas da RBS observou que toda a folha de pagamentos do Nóia anda por volta de R$ 120 mil Reais. Ou seja: só o salário do D’Alessandro paga os jogadores do Novo Hamburgo por vários meses.

Qual é a lógica que preside esta disparidade abissal? Certamente, não está dentro das quatro linhas. Desconfio que possa haver muita coisa interessante escondida atrás destes números fantásticos, coisas como desvios, lavanderias, etc. Não consigo entender – é que eu sou muito ingênuo – porque não são frequentes as auditorias nestas contas todas. Afinal, desde o tempo das investigações de Watergate, que resultaram na renúncia do presidente norte-americano, Richard Nixon, na década de 70, é sabido que, para encontrar os rolos, basta “seguir o dinheiro”.

Esta, porém, não é a única razão. Há razões que podem ser expostas à luz do dia. O que mais justifica esta disparidade toda é o tamanho das torcidas. Trata-se, portanto, de razões de mercado. Tem gente que acredita na racionalidade do mercado. O título conquistado por uma penca de atletas que, no conjunto, não batem a remuneração de vários dos jogadores colorados deveria nos fazer pensar seriamente sobre esta tal racionalidade.

É racional, sim, quando se trata apenas da promoção de vendas e produção de lucros. Quanto a todos os outros resultados, porém… Produz mais qualidade de vida? Produz mais cultura e mais civilização?

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