– Novo Hamburgo, 29/04/17 –

Vejo muitos dos meus amigos, parceiros de convicções, companheiros de lutas, comemorando os resultados da Greve Geral de ontem. E estou eu, também, entre os felizes. De fato e sem dúvida, o movimento alcançou dimensões históricas. Os organizadores falam em 35 milhões de trabalhadores que não bateram ponto, somando os que aderiram plenamente ao movimento e foram às manifestações de rua, os que ficaram em casa e os que não conseguiram chegar ao trabalho.

Não sei este número de confirma ou não. Mas acredito não estar muito distante da realidade. Portanto, é, sim, um fato a ser comemorado. Por nós. Tem um outro lado que não gostou nem um pouquinho do que aconteceu e das dimensões atingidas pelo que aconteceu.

O que mais importa, porém, não é a comemoração. Mais importante é pensar e repensar sobre todos os significados do antes, do durante e do depois. Óbvio que não vou eu pretender fazer a análise completa e correta. Quero mais é compartilhar algumas reflexões, para ajudar no pensamento coletivo (que é um dos fenômenos, o pensamento coletivo, mais importantes e menos lembrados desta longa luta que estamos travando e intensificando no Brasil).

1) O ponto mais importante, na minha opinião, é a constatação de que a Greve não muda o projeto golpista, que é cortar radicalmente direitos e benefícios do povo e dos trabalhadores brasileiros, além da dilapidação do patrimônio público, através do desmonte e da entrega de diversas instituições governamentais (empresas, fundações e até setores administrativos inteiros, como tentaram com o Ministério da Cultura).

A articulação de poderes que constitui o Golpe continua forte o suficiente para insistir em seu gigantesco projeto de redução do Estado e aniquilamento da organização popular. Mas foi impactada. Duramente impactada. A cada dia que passa, se torna mais difícil conseguir os votos no Congresso para aprovar as leis que destroem direitos (dando pinceladas de legitimidade ao que se mostra cada vez mais claramente ilegítimo, por resultar de negociações espúrias e muitas vezes criminosas – alguém acha que não está havendo compra de votos neste processo?).

Há um preço que deputados e senadores não querem pagar, em troca dos favores que podem receber por votar de acordo com o projeto golpista: a perda de seus mandatos, na próxima eleição, por insuficiência de votos. E a simpatia com que a população acompanhou a Greve é um sinal de alerta que nenhum candidato razoavelmente inteligente consegue ignorar (e eles são razoavelmente inteligentes). Não é por outra razão que o governo tem adiado a votação de projetos, temendo sua derrota em plenário e anunciado “abrandamentos” e pequenas alterações, visando desmobilizar setores do movimento popular.

2) Os recuos – meramente táticos – dos golpistas indicam, para o movimento popular, a necessidade – estratégica – de ampliar e aprofundar as mobilizações a partir dos interesses concretos da população. Os fatos concretos é que viabilizaram a conjunção de forças que disputam liderança e hegemonia junto no campo popular. Quando se discute a falácia da Lava Jato, alguém ainda pode enganar (ou até se enganar) quanto ao lado em que vai se postar. Quando se ameaça concretamente a Previdência Social ou a mínima justiça nas relações de trabalho, porém, há pouco espaço para equívocos.

3) Outro fato relevante é que se aprofunda a discussão entre as duas forças básicas em disputa. Os argumentos vão revelando com clareza crescente o que de fato está em jogo. São duas as disputas: o jogo geopolítico entre nações e a famosa “luta de classes”. O fato mais positivo é que os argumentos que justificam as lutas dos trabalhadores começam a ser declarados com mais força e consistência, porque embasados em fatos concretos. Neste epsiódio, voltaram a atacar o movimento popular como baderneiro, por criar transtornos ao trânsito e a liberdade de ir e vir. Desta vez, porém, o contra argumento popular foi poderoso, denunciando as pressões patronais contra o direito de greve e o direito histórico dos oprimidos de reagirem contra as opressões.

4) E, também diante da concretude das ameaças e das realidades praticadas contra o povo, também se altera o quadro institucional. Esta greve, realizada e organizada por uma unidade das forças populares, especialmente os sindicatos, contou com o apoio explícito de várias instituições que até agora estavam tímidas, caladas, neutras ou até do outro lado. Faz tempo que a Igreja Católica não se manifesta de forma tão clara sobre uma questão pontual como esta Greve Geral. E não foi só a Igreja Católica. Também considero muito relevante a postura de apoio da Igreja de Confissão Luterana do Brasil (em Novo Hamburgo e na região isto tem um significado muito especial).

5) Isto tem tudo a ver com a autêntica guerra de informação que está ocorrendo no Brasil – e em todo mundo, para dar a dimensão real dos fatos. Ontem, o Jornal Nacional dedicou vários minutos para divulgar a notícia de que a Globo tinha falado sobre a Greve Geral. Ué? Noticiar que noticiou? Porquê?

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