– Novo Hamburgo – 27/04/17 –

Fui tomar um refri e comer um pastel quentinho no quiosque da Praça 20, faz alguns dias. Estava bem sentado e ouvi uma batucada, vinda lá dos lados do recanto da estátua do Borges de Medeiros, onde gostam de se reunir moradores de rua, para dormir e compartilhar algum alimento e alguma cachaça. Fiquei curioso: batucada vinda de lá é coisa rara, ainda mais organizada e inteligível, gostosa de ouvir, como aquela que eu estava escutando.

Fiquei curioso e fui ver o que estava acontecendo. Tinha até um violão na roda. Eram cinco, limpos, barbeados, cabelos cortados, mas já com uma garrafa passando de mão em mão (na verdade, um deles estava mais apegado à garrafa e já dava sinais de embriaguez). Eram umas quatro da tarde. Outros dois já pareciam um pouco cansados. Dois nem pareciam ter bebido, mas todos já cheiravam a álcool. Os dois mais alcoolizados não quiseram posar para a foto.

E tinha um sexto personagem, que já conheço de minhas andanças no mundo da cultura hamburguense, o MC Caboclo, dos Manos do Morro, da vila Kroeff. Ele, junto com o Cristiano Costa, que representa o Hip Hop no Conselho Municipal de Política Cultural, já tinha me falado de duas ideias básicas que estavam tentando desenvolver. Uma era a de usar tambores no rap (coisa de que também o Tamborero já tinha me falado). A outra, o desenvolvimento de ações culturais diretas com o povo pobre, visando criar novas perspectivas de vida através da arte.

Pois estava lá, na praça, o MC Caboclo fazendo exatamente as duas coisas ao mesmo tempo. É um cara absolutamente fora de série. Um baita poeta. Um curioso incansável e uma usina de ideias fervilhando na cabeça.

Eu soube, aliás, com muita alegria, que os Manos do Morro tiveram aprovado um projeto que enviaram para concorrer aos recursos distribuídos através do Edital de Fomento, elaborado pelo Conselho e posto em prática pela Secretaria Municipal de Educação. Eles ainda não receberam o recurso.

Mas o projeto, já estão executando.

Há anos.

Vale lembrar: há uns dois meses contei a história de dois jovens da periferia que foram assassinados, há beira do Rio dos Sinos, Jonas e Fabrício, justamente na Vila Kroeff. Os dois foram identificados como prováveis criminosos pela polícia que, ao que parece, não evoluiu muito com a investigação. Um deles, de fato, estava cumprindo pena, mas o relato que tive da comunidade da Vila Nações Unidas, onde moravam, é que um não tinha e não teve envolvimento com o crime e o outro estava em recuperação.

Ambos participavam das atividades que já então os Manos do Morro (não confundir, por favor, com a facção de traficantes identificada como “os Manos”) desenvolviam, buscando conscientizar a juventude da periferia sobre a armadilha do mundo do crime, das drogas e do álcool.

Quando me despedi do Caboclo e de seus amigos, na Praça 20, fiz minhas costumeiras observações sobre a escravidão da cachaça e disse que podiam procurar ajuda, ali pertinho, no Centro de Atendimento Psico Social (CAPS). Como se não soubessem.

Conselho meio besta, meio inútil, vocês podem pensar. Mas o Caboclo emendou: “Viu? É bem disto que eu estava falando”. E um dos que ainda estavam mais sóbrios ainda concluiu: “Eu sei. Eu sei. E tou tentando. E vou tentar”.

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