– Novo Hamburgo, 26/04/17 –

Estive visitando o Sarau do Rio, em São Leo, no último domingo. Cara, que coisa mais linda, aquele povo todo reunido, na beira do Rio dos Sinos, curtindo música, arte, ouvindo palestras, passeando na boa… Vejam as fotos… mas não dá pra imaginar só olhando as fotos. Tem que imaginar chegar lá e o som ambiente estar tocando músicas do Sérgio Sampaio, do Ednardo…

Fiquei comparando com o que está rolando em Novo Hamburgo. Enchi os pulmões de esperança… apesar destes tempos duros que estamos vivendo, enchi a alma de esperança.

A comparação é meio complicada. Posso cometer alguns erros e até injustiças, mas é bom expor o que a gente está vendo e pensando, pra provocar, pelo menos. Sem a pretensão de estar vendo tudo e compreendendo certo. Enfim, vejo as duas cidades, Novo Hamburgo e São Leopoldo, num momento muito intenso, produtivo e criativo da sua vida cultural.

Há uma diferença fundamental, porém, na relação entre as comunidades culturais (o povo da cultura) e as administrações municipais.

Nas duas cidades, o povo da cultura vem se agitando e organizando, tanto comunitariamente como do ponto de vista de atividade econômica, de forma consistente e crescente, nos últimos anos.

Diferentes, porém, foram as posturas das duas administrações municipais. Em São Leopoldo, com uma administração tucana, houve uma brutal queda dos investimentos públicos em cultura, acompanhada de um bloqueio quase completo do diálogo. Em Novo Hamburgo, com administração petista, os investimentos foram acanhados também (embora não tanto como na cidade vizinha), mas houve diálogo intenso.

Este ano, temos alterações importantes, nas duas cidades, e quase todas positivas.

Em São Leopoldo, a administração volta ao PT, com uma forte disposição de retomar a iniciativa pública no campo da cultura, mas com uma massacrante herança de problemas financeiros. Ao mesmo tempo, o povo da cultura, sedento da parceria pública de que foi privado nos últimos quatro anos, aparece com uma disposição redobrada de realizar e fazer acontecer. Foi o que se viu no Sarau do Rio.

Em Novo Hamburgo, a administração agora tucana herda uma situação financeira muito confortável, se comparada com a da maioria dos municípios gaúchos e brasileiros (grande legado do ex-prefeito Luís Lauermann, cuja importância seus adversários gostariam de diminuir, mas não tem como negar). No entanto, fora da caixinha do pensamento tucano dominante no Estado e no país, a administração parece disposta a investir consistentemente em cultura. A equipe de CC’s montada pelo atual secretário de Cultura, Ralfe Cardoso, é de alto nível profissional e tem comprometimento intelectual e afetivo com esta área.

No entanto, está tendo alguma dificuldade no diálogo com o povo da cultura.

A competência profissional e a qualificação da nova equipe, em Novo Hamburgo, já começa a dar vários sinais. Vi, por exemplo, a exposição de quadros sobre o patrimônio histórico, no saguão do Centro Administrativo. Excelente no conceito, ótima na iluminação, coisa de gente que sabe muito bem o que faz. Amanhã (quinta-feira) com a exposição dos quadros de Flávio Scholles e Marciano Schmitz, aliada à reabertura  do Memorial do Carlão (Carlos Alberto de Oliveira), mais a apresentação do projeto de revitalização do Espaço Cultural Albano Hartz… nossa!… a cidade vai ver o quanto de bom pode esperar desta equipe.

Quando digo que o diálogo entre o poder público e o povo da cultura em Novo Hamburgo está difícil, constato uma realidade, mas não deixo de acreditar numa evolução positiva. Quinta da semana passada, na audiência pública realizada realizada pela Câmara de Vereadores, sobre a ocupação de espaços públicos por iniciativas comunitárias, a participação da administração municipal foi decepcionante. Foi representada apenas pelo secretário da Cultura, sem informações novas a oferecer e até desinformado de contatos feitos com outras áreas da administração sobre o mesmo tema.

O secretário Ralfe, porém, não ficou devendo disposição pessoal para o diálogo. A representação comunitária que participou do evento, por sua vez, tampouco foi impaciente ou intolerante. Manifestou claramente sua insatisfação com o uso da burocracia e das leis para estreitar os limites da sua ação; mostrou conhecimento e propôs alternativas; posicionou-se com firmeza em favor da implementação do Plano Municipal de Cultura aprovado no ano passado.  Mas, embora crua e direta em suas manifestações, foi respeitosa e não só manteve aberta as portas ao diálogo, como encaminho sua continuidade.

Acho interessante compreender a especificidade desta administração tucana, de Novo Hamburgo. Ela parece ter uma visão clara de que o investimento em cultura pode ser um diferencial importante na dinamização da vida econômica e como instrumento de ação em outras áreas de atividade pública. A equipe que assumiu a Secult é uma evidência desta minha suposição. No entanto, sua visão de mundo é focada nos negócios, preferencialmente grandes, na atividade empresarial, preferencialmete grande. Tem dificuldades para enxergar a atividade comunitária como um fim.

Mas não me parece cega. Por isto, há, sim, amplo espaços para o diálogo e razões de sobra para confiar e investir em esforços para realizá-lo. Teremos decepções, incompreensões e divergências, de parte a parte, com toda certeza. Mas teremos, também, importantes saldos positivos.

E, aí, volto a atravessar o rio e, durante aquele maravilhoso sarau, imaginar que as duas administrações, vinculadas a partidos diametralmente opostos, tendem a realizar um excelente trabalho na área da Cultura, inevitalmente em parceria com as forças comunitárias que são a principal força motriz do seu desenvolvimento.

Tomara que estabeleça uma forte competição para mostrar qual a proposta de gestão mais eficaz. Que se recupere a vitalidade da competição entre os “Capilés” de São Leopoldo e os “Spritzbiers” de Novo Hamburgo, como se apelidavam mutuamente os moradores dos dois lados do rio.

No entanto, melhor ainda, se conseguirem, rivalidades à parte, trabalharem em parceria (mesmo que só em alguns momentos, em iniciativas pontuais). Isto também aconteceu no passado. Lembro, por exemplo, que o grande ambientalista leopoldense, Henrique Luís Roessler, hoje venerado em São Leopoldo, teve em Novo Hamburgo uma de suas mais sólidas bases de apoio comunitário. Ao ponto de ter seu nome escolhido para identificar uma das mais fortes entidades ambientalistas do Estado.

As disputas e rivalidades são históricas, mas circunstanciais. As afinidades e convergências me parecem uma vocação.

Ah!… eu ia esquecendo das fotos… Publico-as, para que os “capilés” se encham de orgulho e os “spritzbiers” se roam de inveja…

… compartilhando um generoso chopp artesanal.

 

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