– Novo Hamburgo – 23/04/17 –

Acho que o desfile das Escolas de Samba, de ontem à noite, foi a festividade que mais reuniu público, entre as comemorações pelos 90 anos de emancipação política de Novo Hamburgo. Vou logo informando, como requer a honestidade jornalística, que ao falar de números, estou usando meu “achômetro” e não uma medida rigorosa. Mas a avenida Pedro Adams Filho estava lotada, das bancas até a esquina com a rua Lima e Silva. E o espetáculo foi lindo, especialmente pelos significados que desfilaram (e assistiram o desfile).

Cheguei bem cedo, perto das 20h00, e… putz! O som do palanque oficial tocava uma marchinha de salão. E não podia ser pior a letra: “o teu cabelo não nega, mulata / porque és mulata na cor / mas como a cor não pega, mulata / mulata, eu quero teu amor”. Se fosse um desfile competitivo, o Troféu Insensibilidade já tinha sido definitivamente conquistado pela Diretoria de Comunicação da Prefeitura. Além de não saber que carnaval de salão e carnaval de rua são mundos completamente diferentes – e que o povo do samba não curte que se misture estas marchinhas no mesmo balaio – ainda permitem uma letra racista.

Havia pouca gente, ainda, na avenida… mas as tradicionais avós de família, que chegam bem cedo com suas cadeiras, para garantir um lugar, já estavam lá. E foi chegando gente. Fui encontrando velhos amigos do samba e, depois dos abraços, alguns comentários sobre a festa, torcida para que fosse um espetáculo bonito e, claro, algumas críticas. Constatei que não era só eu quem estava incomadado com as marchinhas e, especialmente, com a marchinha da mulata.

Encontrei um servidor da SECULT e sugeri colocarem samba no som. Ele disse que já tinha se dado conta e pediu que o pessoal do som tomasse providências. Mas eles não tinham sambas nos seus arquivos. Tiveram que correr para conseguir algum pen-drive (estranho, pois a SECULT tem gravados os samba-enredos de anos passados). Mas, enfim, meia hora depois, o repertório mudou um pouco. Apareceram alguns sambas. As marchinhas continuaram dominantes, mas aquela, de letra racista foi excluída.

Eu já estava querendo ficar deprimido, pensando em toda a falta de consideração da Administração com o Carnaval (no meio de um feriadão, esfriando, escolas com dotação orçamentária minguada e a ser paga trinta dias depois do desfile, nada de carros alegóricos, nada de arquibancada, pista inadequada para a dança), quando, ao lado das bancas, começou a batucada da bateria da Império da São Jorge.

Olhei para minha companheira, Salete, e ela estava sorrindo. Olhei para o público e estava quase todo mundo sorrindo. Eu estava sorrindo também. Ah, o poder do samba!

Quando a Escola já estava na preparação, momento em que o presidente faz um chamamento à comunidade e o puxador busca incendiar os corações dos carnavalescos, o raio do som do palanque continuava tocando marchinhas, ao invés de se conectar ao caminhão do som. A batucada da Império, porém, já tinha operado o milagre e a falta de respeito ficou de importância menor. E quando a Escola entrou na avenida, entrou escancarando o espírito que iria predominar até o final da noite: “Não deixa o samba morrer!”

Não quero comparar os desfiles das quatro escolas. A Protegidos ficou de fora e as outras, cada uma com suas forças, trouxeram apresentações estimulantes. Um ponto alto, talvez fosse o discurso do presidente da Cruzeiro do Sul, Jaílson Barbosa, mas o público não pode ouvi-lo direito. As marchinhas do palanque continuavam competindo com as mensagens de início do desfile. Tive que prestar muita atenção para entender que ele estava falando na força de uma cultura, em resistência, que eles estavam lá por todos os seus ancestrais, pelas gerações futuras, pela comunidade carnavalesca de todo o Estado.

CARNAVAL 02
Cruzeiro desfilou em nome dos ancestrais e das gerações futuras!

Enfim, o desfile correspondeu às palavras do presidente.

Evidente que escrevo com forte espírito crítico, expondo uma diferença essencial de postura diante do evento. De um lado, uma administração que realizou o desfile sem muita convicção. Do outro, um povo que, por amor a sua cultura, brindou a cidade com a mais vibrante comemoração pelo seu aniversário, desfilando dignidade, poesia, alegria e cultura pela avenida.

No entanto, acho necessário fazer algumas ressalvas à minha própria crítica. O que chamo de desrespeito talvez fosse melhor traduzido como desconhecimento. Seguramente, não houve vontade de ofender na operação do som do palanque, mas desatenção e falta de um conhecimento mais profundo sobre o universo do samba e da cultura popular.

Além disto, é preciso lembrar que a Administração não deixou de realizar o desfile. Tenho absoluta certeza de que está sendo duramente criticada, em razão disto, por um setor considerável da opinião pública que, também por desconhecimento, acha que o investimento na cultura popular é um desperdício de recursos.

Acredito que, pela dignidade com que se apresentaram, as Escolas conquistaram respeito e ampliaram as possibilidades de diálogo com a Administração. Esta, por sua vez, pode ser criticada pelo seu desconhecimento, pelo seu afastamento da realidade popular, mas merece o elogio pela coragem e até pela sensibilidade.

O samba não vai morrer. Os méritos se compartilham.

 

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