por Gustavo Oliveira Comanchi

– Novo Hamburgo – 18/04/17 –

Antes de qualquer coisa, vou me valer de uma das lições que aprendi na minha curta vida acadêmica e que considero bastante importante: quando a gente vai publicizar um conteúdo, seja científico ou de opinião, importa bastante dizer quem a gente é ou de que “lugar” estamos falando.

Bem, eu sou estudante no curso de doutorado em Ciências Sociais pela Unisinos; militante e membro do diretório e executiva municipal do Psol (Partido Socialismo e Liberdade) em Novo Hamburgo; conselheiro suplente do Conselho Municipal de Política Cultural de Novo Hamburgo, pela setorial de literatura; integrante e uma das pessoas que deram a primeira vida pro Coletivo Cultural Manifesto Poesia; e, depois vocês vão entender porque dizer isso, sou homem, branco, heterossexual e com uma condição financeira que dá pra viver bem.

Porquê tô aqui escrevendo esse texto?

Vamos, então, ao que interessa, que é o conteúdo que faz jus ao título aí de cima.

Além de ser-estar estas coisas que destaquei aí em cima, eu tenho uma história de idas e vindas com a Sociedade Esportiva, Cultural, Beneficente Cruzeiro do Sul, ou, a popularmente conhecida, Cruzeirinho. Não se tratam de idas e vindas motivadas por qualquer tipo de conflito, mas porque, quando era muito pequeno, como estudava na escola José Bonifácio e frequentava o Núcleo Extraclasse do bairro Primavera, participei de algumas atividades lá na sociedade. A que mais me lembro eram as aulas de capoeira. Depois me afastei quando saí da José Bonifácio, tive alguns flertes que se limitaram à idas nos ensaios, quando tinha uns vinte anos e, por fim, minha aproximação mais consciente e consistente se deu agora, a partir de 2015, com a troca de gestão da sociedade. A partir daí passei a participar, em pequenas medidas, da gestão da sociedade e, a partir de agosto de 2015, como uma iniciativa daquela gestão de ocupar melhor a sociedade com atividades “de ano todo”, iniciamos o Sarau do Cruzeiro, que depois passaria a ser organizado pelo Manifesto Poesia em parceria com o Cruzeiro. Toda essa introdução importa pra que se compreenda o que vem por aí no texto…

Estive fora do país de dezembro/2016 a março/2017 e, por isso, acompanhei apenas de longe a “questão carnaval” em nossa cidade. Por esse mesmo motivo (estar fora do país), estive ausente das duas primeiras reuniões do conselho de cultura no ano, retomando já na reunião de março, logo depois de chegar de volta à cidade. Naquela reunião, como tínhamos uma pauta extensa e por ainda não ter sentido na pele – e no coração – o que estava acontecendo na comunidade do Cruzeiro, não chamei a atenção para a questão carnaval.

Na sexta-feira, 07/04, estive no ensaio lá na sociedade. É claro que eu já sabia que o carnaval, como estava desenhado para Novo Hamburgo neste ano, não seria “lá grandes coisas”, mas foi lá, sexta-feira no ensaio, que senti o quanto fará mal pra nossa cidade essa falta de comprometimento e interesse por parte da gestão pública municipal. Participei ativamente dos últimos dois carnavais (2015/2016) pelo Cruzeiro, seja das preparações/bastidores, seja no desfile em si. E o que vi lá no ensaio foi um sintoma das condições impostas pela prefeitura para que o carnaval saísse esse ano. Mas o que eu vi lá no Cruzeiro de tão ruim assim? Em verdade, é o que eu não vi. Estavam todos lá, é claro! Bateria, destaques, diretoria, diretores de ala, simpatizantes, etc. Mas então, que faltou? Faltou energia, faltou engajamento, faltou comprometimento… Faltou sensibilidade da gestão pública.

Porquê percebi esses sintomas lá no ensaio do Cruzeiro?

Não sei se é do conhecimento de toda a comunidade hamburguense, mas o carnaval de Novo Hamburgo, esse ano de 2017, vai ser bem diferente do que vimos nos últimos anos. A principal consequência todas e todos já sentimos: fevereiro passou e nada de carnaval. Pra quem quer saber mais, aí vai: o carnaval vai acontecer no próximo dia 22/04, período que historicamente faz frio e, pra ajudar ainda mais a comunidade carnavalesca (ironia), dia 22 é bem no meio do feriado de Tiradentes (21/04, na sexta). Quer mais? O carnaval não vai ser na Pista de Eventos da cidade, local conquistado pra que servisse pro carnaval e outros eventos de rua. Vai voltar a acontecer na Av. Pedro Adams Filho. Além de tudo isso, o repasse de verba da gestão municipal, que, pelo menos nos últimos dois anos, em que estive envolvido, foi de R$ 42.000,00, baixou para R$ 25.000,00. O que isso significa? As escolas desfilarão sem alegorias (os carros alegóricos).

Que fique claro que os argumentos utilizados pelo secretário de cultura na última reunião do conselho de cultura, sobre “os porquês” de o carnaval estar sendo organizado desta forma, argumentos que centram-se nas questões impeditivas impostas pelo Marco Regulatório, uma lei federal posta em prática pela gestão do PSDB iniciada neste ano corrente, são totalmente legítimos. Entretanto, isso não diminui as consequências alarmantes que vou expor a seguir.

Consequências do carnaval de 2017 (e do não comprometimento da gestão pública)!

Pra além disso que falava sobre o sentimento de desmobilização e desengajamento que percebi lá no ensaio do Cruzeiro, tem uma outra coisa que considero ainda muito mais grave, senão, vejamos: porquê eu apontei antes de entrar no assunto principal desse texto que eu sou homem, branco, heterossexual e com uma condição financeira estável? Porque a comunidade do Cruzeiro, em geral, sofre opressões cotidianamente e, não sejamos tolos, essas opressões se refletem no acesso à cultura.

Sobre opressões: das quatro características que estou relacionando à formas de opressão, a única que eu já sofri e sofro diariamente, é a opressão do capital, do dinheiro, já que não me encontro (UFA!) na classe burguesa. Entretanto, eu nunca sofri machismo (sou homem), nunca sofri racismo (sou branco) e nunca sofri homofobia (sou heterossexual). Não fica difícil de perceber, então, que pelo fato de a comunidade do Cruzeiro ser, em sua grande maioria, de negros, em condições financeiras vulneráveis e onde se encontram muitas mulheres e algumas pessoas homossexuais, eles são oprimidos todos os dias e, consequentemente, veem seu acesso à cultura diametralmente reduzido e comprometido pelo simples fato de ser quem são. Nossa cultura, em geral, é paternalista, branca, heterossexual e burguesa. Logo, eu, por exemplo, estou em ampla vantagem em relação à comunidade do Cruzeiro, pelo menos quando o que está em jogo é o acesso à cultura.

Ou seja, se nesse ano de 2017 a atividade cultural que está mais ao alcance da comunidade do Cruzeiro está sofrendo tão grave desmanche como estamos vendo, que atividade cultural aquela comunidade vai acessar no ano? Não me canso de dizer nos fóruns em que participo e também nas rodas informais de conversa, que para muitas pessoas de comunidades negras e em situação de vulnerabilidade social, o carnaval é a única forma de acesso e vivência de cultura.

Bem, pra terminar, uma consequência não menos grave: o carnaval 2017 de Novo Hamburgo tende a ser um desastre, infelizmente. Esse desastre, certamente, fará com que a opinião pública burguesa e preconceituosa que todos os anos tenta derrubar o carnaval do nosso calendário cultural, se encha de argumentos pra dizer que não devemos, mesmo, viver mais carnavais na cidade. Vão dizer, eles: se nem a própria comunidade carnavalesca consegue se mobilizar pra fazer um bonito carnaval, porque temos nós, que nem gostamos dessa “festa”, que apoiá-la? E ainda vão dizer: viu só, dinheiro público pra isso aí, ó!

Bem, não me causa surpresa que um partido elitista e burguês, que governa pros empresários e não pro povo, esteja no mínimo aceitando que as coisas aconteçam como estão acontecendo. A Maurício Cardoso deve estar bem feliz com essa falácia do carnaval de Novo Hamburgo, nunca toparam o carnaval mesmo e, agora com uma gestão pública toda sua, encontraram os atalhos que faltavam pra agir.

Novo Hamburgo não vai ter carnaval em 2017! Vai ter, no máximo, um desfile de escolas de samba. Carnaval é em fevereiro. Carnaval tem carro alegórico. Carnaval tem energia e calor.

Meu coração é carnaval, mas o que meu coração sente está bem longe da agenda de prioridades do PSDB.

(*) Observação do Editor: todas as informações, conceitos e opiniões são de responsabilidade do autor do texto… mas concordo com tudo que está dizendo!

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