– Novo Hamburgo – 05/04/17 –

Acho que a gente sempre deve se perguntar, nestas datas de comemoração e memória coletiva, o que, exatamente a gente está festejando? E, pra nós, de Novo Hamburgo, o quê significa exatamente este 05 de abril, que agora é lembrado há 90 anos?

Bem, desde pequenininho – e olha que isto faz teeeeempo! – me acostumei a entender o 05 de abril como um dia radioso e ensolarado. Ainda sinto a vibração de uma grande satisfação íntima, de um orgulho incontido, mas sincero, nas vozes de pai, mãe, tios, tias, avôs e avós.

Éramos filhos e netos de uma comunidade que havia empreendido uma luta difícil para emancipar Novo Hamburgo de São Leopoldo e, assim, destinar para investimentos públicos no local onde eles eram gerados, dinamizando e impulsionando o desenvolvimento da cidade.

Minha lembrança mais remota destas manifestações de satisfação com o crescimento da cidade hoje pode parecer até divertida: “Nossa! Novo Hamburgo já tem 15 mil habitantes”. Anos depois, ouvi a mesma constatação espantada, mas com outros números: 50 mil habitantes! Ou, quando apareceu o edifício Minuano, no Calçadão: “Nossa! Novo Hamburgo já tem um arranha-céu!” (era o apelido que se dava, naquele tempo, aos prédios muito altos, que já existiam às dezenas em Porto Alegre).

Por estranho que isto possa, hoje, nos parecer, estas coisas realmente eram de comemorar. A comunidade, podendo administrar os recursos públicos que ela mesma gerava, ganhou pavimentação de ruas, multiplicou escolas, melhorou o saneamento.

Hoje, porém, passados tantos anos, mas por sempre ter me debruçado sobre a História da cidade, entendo que havia algo mais a ser comemorado no 05 de abril, que representou mais para o bem comum do que a simples disponibilidade de recursos. A luta pela emancipação, eliminando preconceitos e disputas, criou uma sinergia impressionante na comunidade.

Existia, por exemplo, um afastamento entre as comunidades católicas e evangélicas luteranas. Mais forte era a disputa entre as duas principais localidades do interior de São Leopoldo, Novo Hamburgo e Hamburgo Velho.

O trabalho mais difícil enfrentado pelos emancipacionistas não era o de convencer a presidência do Estado de que os benefícios da emancipação seriam maiores do que os prejuízos causados pela insatisfação dos leopoldenses. Mais difícil foi unir as duas comunidades geográficas, Hamburgo Velho e Novo Hamburgo, e as duas comunidades religiosas, evangélicos e católicos, em torno de um esforço comum.

Isto foi tão importante, que o local escolhido para a comemoração foi um ponto então considerado equidistante entre as duas localidades: a Praça 20. Ela já tinha sido palco da exposição agro-industrial de 1924, em que as duas comunidades expuseram a pujança econômica de sua indústria e de suas atividades rurais. Do centro de Novo Hamburgo e do centro de Hamburgo Velho partiram dois cortejos que se encontraram e confraternizaram na Praça.

Esta sinergia resultou em uma série de iniciativas e investimentos conjuntos que deram uma dinâmica extraordinária à cidade, mais importanate – friso e repito – do que a própria disponibilidade de recursos públicos. Em 1932 (apenas cinco anos depois da emancipação) vários empresários se cotizaram para instalar uma empresa local de fornecimento de energia elétrica, com usina hidroelétrica própria, em Santa Maria do Herval.

Esta mesma sintonia permitiu a criação de uma empresa local de seguros, de investimentos conjuntos para uma indústria de esmaltados, para a própria criação da Associação Comercial e Industrial… depois determinante também para o surgimento da Fenac e da Feevale.

A pergunta que se impõe, hoje, portanto, como reflexão e maneira honrada e honesta de comemorar esta data é: “quanto desta capacidade de superar rivalidades e preconceitos ainda conseguimos manter viva?”.

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