– Novo Hamburgo, 01/04/17

Dá uma tristeza, né?… ver os balanços aí, da foto, pendurados, sem vida, inertes como estacas…

… as gangorras imóveis…

… os trenzinhos de madeira… solitários…

… onde estão as crianças?

Não estão. Até, no mínimo, o início de junho, quando os dias serão úmidos ou frios – quando não as duas coisas juntas – ninguém entra no Parcão. Só quem estiver trabalhando nas obras. Porquê?

“Buscando finalizar as obras inacabadas, cumprir a legislação e garantir a segurança dos usuários, a Prefeitura de Novo Hamburgo fechará nesta quarta-feira, dia primeiro de março, o Parque Henrique Luis Roessler (Parcão), com prazo de reabertura previsto para 90 dias”, diz secamente a nota oficial da Prefeitura, assinada pelo secretário municipal do Meio Ambiente, professor Udo Sarlet.

Estranho!… quer dizer que antes, na administração anterior, do prefeito Luís Lauermann, quando o Parcão Roessler também estava em obras, mas estas ficavam isoladas e o resto do lugar ficava acessível à população, não se cumpria a legislação nem se garantia a segurança da população? Estranho!… não sei de nenhum problema ocorrido naquele período, que justificasse o isolamento total do Parque Roessler!

Lá no seu finzinho, a nota presta um esclarecimento adicional:

“… Também estamos cumprindo a legislação ambiental, de segurança dos usuários e o acordo previsto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento”…

Ah!… Isto está no acordo com o BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento. Antes, não estava. É que o prefeito Luís foi muito incisivo exatamente no ponto de que as partes do Parcão Roessler que não estivessem em obras deveriam ficar liberadas para a população… Cerca de duas mil pessoas, a cada fim de semana, deste verão…

Mas, decidi dar uma olhada pra ver o grande perigo que poderiam correr os usuários do Parque caso ele ficasse aberto. Como todos os acessos estão fechados com tapumes, primeiro fiquei observando para ver por onde entravam e saíam os trabalhadores que estão executando as obras. Demorou um pouco, porque são poucos os trabalhadores, mas passaram dois, de uniformes azuis, carregando um saco de supermercado, provavelmente com pão e mortadela…

Logo nos primeiros passos, entrando no matinho que antecede a praça de brinquedos, encontrei dois moradores de rua, que vieram me pedir cigarros e foram logo se explicando:

“A gente fica só aqui no matinho, porque o guarda explicou que, se aparecer alguém dentro do parque, o Banco corta o dinheiro. E a gente sabe que este parque é pra todos, então a gente não quer prejudicar… A gente fica só aqui no matinho e logo vai embora…”

Fiquei bem feliz em ver a preocupação de dois moradores de rua com o bem comum. E achei estranha aquela parte do banco cortar o dinheiro. Segui meu caminho e me aproximei das obras e da praça de brinquedos.

E aí, aquela tristeza. Tudo parado. Os balanços imóveis e, ao fundo, algumas pilhas de tijoletas de cimento para pavimentação. Trabalhadores, vi quatro ou cinco. Três conversando. Um parecia estar trabalhando na pavimentação. Outro sentado, contemplando a belíssima natureza. Tirei algumas fotos.

PARCÃO C

PARCÃO B

Aí, me chegou um guarda municipal, de moto. Fez uma volta, me observando, e se aproximou pra me perguntar o que eu estava fazendo ali (gentilmente, devo informar). Expliquei que estava tirando umas fotos e ele me pediu para ir embora, “porque se o banco souber que uma única pessoa entrou aqui no parque, corta todos os investimentos”.

Me explicou também que eu estava cometendo um crime, por estar desrespeitando a lei, porque em todos os tapumes estava escrito que era proibida a entrada. Achei que não precisava argumentar sobre o direito do jornalista de investigar e informar. Já tinha visto o que queria. Já tinha o registro e, bem, era um trabalhador como eu, “cumprindo seu duro dever e defendendo seu amor”, como diz a canção do Belchior. Pedi desculpas, lhe desejei um bom dia e segui meu caminho.

Saí pensando no secretário Udo, que conheço e sei ser uma boa pessoa e também está, à sua maneira, “cumprindo seu duro dever e defendendo seu amor”. Da mesma forma, pensei sobre a prefeita. Acho que eles pensam, mesmo, que estão fazendo a coisa certa. Em artigo anterior (o link está logo aí embaixo) eu já havia dito que as negociações com o pessoal do banco são ásperas.

https://carlosmosmann.wordpress.com/2017/01/23/o-dramalhao-do-emprestimo-do-bid/

Vai ver que este cercamento total é mesmo algo acordado com o banco. Mas aí entra a sutil diferença entre um gestor público e outro. A atual administração preza muito a técnica, embora a gente ainda não tenha visto toda esta qualificação técnica transformada em benefícios para a cidade. Talvez falte isto: entender, para além da técnica, o que é benefício para a população.

Tipo: os meses de início de outono, em nossa região, costumam ser ensolarados e amenos (como tem sido este ano). Vale a pena privar a população do acesso ao Parque Roessler, em nome de obras que vão se arrastando lentamente e podiam, perfeitamente, estar isoladas?

Ah, a nota termina dizendo que, entre outras opções de lazer, a população tem o Parque Floresta Imperial. De fato, ele está lindo. No último ano de seu mandato, o prefeito Luís assinou um acordo, da Prefeitura com a Comusa, em que esta assumiu o encargo de manter a manutenção do Parque, em troca do uso de uma pequena área para instalar algumas atividades.

 

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