– Novo Hamburgo – 28/mar/2017 –

Não é só pelo talento – que não lhe falta – que Henrique Schneider é o mais reconhecido e destacado escritor hamburguense, hoje. Muito menos pelas oportunidades que a vida lhe deu. É sobretudo pelo denodo, pela vontade, pela persistência… por um tantinho mais…

… pela militância (e peço a vocês que entendem que não falo de uma militância política, pelo menos não daquela que o senso comum identifica como política).

Quando a gente lê um texto dele, dá a impressão que ele simplesmente senta diante de seu computador e as palavras fluem pelos dedos, assim tipo o sangue flui pelas veias, tal a naturalidade com que escreve.

O que a gente não percebe – e a intenção é justamente que não se perceba – é que para dar a impressão de que um conto foi escrito assim, num jato de inspiração, que tenha exatamente o ritmo do fato narrado…

… é preciso reescrever e reler e reescrever e ajeitar um substantivo, cortar um adjetivo, acertar o tempo de um verbo…

… escrever um texto que desce para o cérebro assim como o primeiro chopp gelado desce pela garganta num dia de verão, leva uma madrugada inteira, na companhia de muitas xícaras de café e um cálice de vinho.

É desta militância que eu falo: a de quem se propõe a um grande e continuado esforço para oferecer o máximo de facilidade ao próximo.

E vocês notem, por favor, que estou falando, até aqui, apenas da forma, quando ainda mais importante – e exigente – é o conteúdo.

O escritor tem que ser relevante. Não pode ser um simples reprodutor elegante do senso comum. Se ele não for capaz de avivar alguma coisa na mente de quem o lê, pra quê serve?

Pra ser relevante, tem que ser diferente, mas não pode ser tão diferente que não possa ser compreendido pelo seu leitor. Seu pensamento pode estar muito distante da média mas, para escrever, precisa aproximar-se desta média, sem colar-se a ela. Isto dá um trabalho do cão e, ainda, embora profundamente racional, também é absolutamente intuitivo.

Há uma generosidade que eu não consigo medir nesta atitude.

Vamos lá, falando do Henrique Schneider, devo lembrar que esta generosidade ultrapassa a arte de escrever. Ele também é um militante (de novo, não no sentido mais usual) da cultura. Ele participa, às vezes trazendo seu prestígio de escritor reconhecido, mas também na discrição do dia a dia, quase secretamente…

… mas isto foi só um comentário. Meu foco é a generosidade do ato de escrever em si.

Um outro capítulo deste comentário é a decisão do jornal ABC (edição dominical do NH e outros jornais diários do Grupo Editorial Sinos) de dispensar a publicação da coluna do Henrique, “Contos da Vida Breve”.

Não quero mirabolar sobre as razões de tal decisão, apenas opinar que é, digamos assim, uma pisada no tomate. Melhor dizendo: na casca de banana.

Dá pra traçar um paralelo com o que fez a então poderosa Cia Jornalística Caldas Júnior, que resolveu, após uma crise com a redação de um de seus jornais, a extinta Folha da Manhã, dispensar uma pá de talentos generosos que trabalhavam em sua redação.

Dispensaram o talento (e a generosidade) do repórter Caco Barcellos, que voltou a ser motorista de táxi, mas em Nova Iorque, passou pela Nicarágua para ver de perto a Revolução Sandinista e hoje é… o Caco Barcellos.

Dispensaram o talento e a generosidade do Luís Fernando Veríssimo.

E o Grupo Sinos dispensou o talento e a generosidade do Henrique Schneider.

Ah! Hoje, a partir das 19h30, no Olé Armazém Mexicano (rua Silveira Martins, 711, Centro – NH), junto com o fotógrafo Edison Vara, Henrique está autografando o livro que os dois compuseram (assim, como se fosse música mesmo), “Cidades Contemporâneas”.

 

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