– Novo Hamburgo, 26 de março de 2017

Fui tocado e fiquei muito feliz – muuuuuito feliz – ao ver a programação da edição #4 do “Entre Nós”, evento super realizado (ontem) pelo Espaço Cultural Entre Linhas. No canto direito do convite virtual, observa: “Homenagem a Kinho Nazário e Elário Kasper”.

Em tempos até recentes, em que a cidade viveu um período de aparente marasmo cultural, eles chegavam a ser um símbolo de resistência e coragem, organizando periodicamente o “Traste Show”. Fizeram muito mais do que isto, mas o show era emblemático, sinal de a cidade continuava viva.

No convite, a observação sobre a homenagem está escrita em pink, ladeada por duas pequenas vinhetas multicoloridas: uma delicada observação sobre a opção sexual dos dois. Kinho e Elário, além de atores, diretores e produtores teatrais, assumiam uma opção sexual, através do “Traste Show”, de forma divertida, mas também acintosa e corajosa.

Quando, hoje, vejo dois homens ou duas mulheres, abraçados, de mãos dadas, trocando carinho na Praça 20, agradeço mentalmente a eles – e a outras pessoas que tiveram a limpidez de assumirem sua forma pessoal de amar, diante de uma sociedade preconceituosa e hipócrita. Lembro também do artista plástico Tito Oliveira e do músico Txa Ka, estes não tanto através da arte, mas da vida pessoal, com desassombro e valentia, assumindo uma relação que se mantém firme, bonita e criativa até hoje.

Eu disse que, naquele tempo, a sociedade era preconceituosa e hipócrita. Devo dizer que ela continua, em grande parte, preconceituosa, mas é menos hipócrita. A hipocrisia foi vencida, em grande parte, justamente pela firmeza dos Kinhos, dos Elários, dos Titos, dos Txa Kas. Mas trouxe à tona o lado mais cruel do preconceito: a agressão; o cerceamento à liberdade; a negação do direito.

É assim a História. A gente não consegue melhorar o mundo sem enfrentar reações. Houve um tempo em que era fácil ser homofóbico e, ao mesmo tempo, posar de liberal. Quando a homossexualidade se afirma à luz do dia, porém, caem as máscaras e o preconceito assume suas formas mais odiosas, exigindo novas formas de coragem de quem luta por sua liberdade.

… ou até pela liberdade dos outros. Pois nem só homossexuais assumem a luta pela liberdade e igualdade de gênero. Lembro de uma exposição de fotos da Suzana Pires, há alguns anos atrás, em que ela retratou uma dezena (pouco mais, pouco menos) de mulheres que vivem juntas, de todas as idades. O casal mais velho andava pela casa dos 70 anos.

O trabalho da Suzana, porém, trouxe a luz um outro significado desta luta: a afetividade. Em todas as fotos, ela buscou retratar não a sexualidade, mas o afeto presente nestas relações. A mesma afetividade que se encontra na vida do Tito e do Txa-ka, ou na delicadeza do convite elaborado pelo coração delicado da Alice Ribeiro.

E esta luta ganha uma nova dimensão. Na verdade, vai além de uma questão de liberdade sexual que, por si só, já é importante. Estamos, agora, já falando do direito à homo…afetividade. E mais: do direito até ao afeto. Ao simples, básico e essencial direito ao afeto.

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