– Novo Hamburgo, 22/03/17 –

Acho que dou em primeira mão a notícia, captada na rádio corredor do Centro Municipal de Cultura: dia 22 de abril, realiza-se o Desfile das Escolas de Samba de Novo Hamburgo. Não sei ainda de mais detalhes, tipo horário e local, mas isto logo todos saberemos.

Comemoro. Agradeço à Secretaria Municipal de Cultura, na pessoa do secretário Ralfe Cardoso, pelo esforço (Sei que foi preciso esforço.). Felicito a prefeita Fátima Daudt. Reconheço que ela teve coragem para enfrentar o pensamento de parcela considerável da nossa comunidade, contrária ao investimento público na cultura afro-brasileira ou, pelo menos, contrária ao Carnaval.

Faz justiça à nossa História e a nossa Cultura. Novo Hamburgo é a única cidade do interior gaúcho que nunca deixou de realizar o desfile de Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos, desde que foram institucionalizadas, em data ainda não encontrada por nossos pesquisadores históricos. Nem Pelotas tem este feito. Nem Uruguaiana.

Salim Rocha e Eduardo Tamborero, no entanto, dois destacados militantes da igualdade e da cultura afro-brasileira, fazem uma importante observação. Há rumores (não confirmados, nem desmentidos) que não haverá carros alegóricos neste desfile. Caso isto se confirme, é uma perda realmente deplorável.

Os desfiles das Escolas de Samba são uma construção cultural e histórica em que as alegorias tem papel de destaque, como símbolo e evidência do poder criativo do povo brasileiro. É coisa que faz lembrar a magnífica obra do Aleijadinho, os bonecos gigantes de Olinda… enfim… Abolir os carros alegóricos é uma demonstração de visão limitada. Os mesmos que acham as alegorias desimportantes não seriam os mesmos que acham que Carnaval é só batucada e rebolado? Que não vêem as baianas? Não vêem as famílias? Não prestam atenção nos enredos?

O Carnaval e a Cultura Afro-Brasileira também devem ser considerados Patrimônio Cultural e Histórico de Novo Hamburgo.

Esta história, que contam, de que Novo Hamburgo é uma cidade alemã, é meio diferente.

A cidade foi, sim – é óbvio – fortemente marcada pela ascendência germânica de parte de sua importante de sua população.

E tenho grande amor por esta fonte de minha formação. Amor de filho, que lembra com carinho dos jardins cultivados pela mãe… lembra com respeito os valores do pai (*) … lembra das músicas que os dois gostavam de escutar… minha mãe adorava valsas, meu pai era apaixonado por guarânias.

Hoje, porém, nas escolas da rede pública municipal, menos de 40 por cento dos alunos da rede municipal pública são descendentes de alemães.

Evidente que “menos de 40 por cento” também pode ser lido como “mais de 30 por cento”. E 30 por cento não é coisa pouca. E há que considerar que nas escolas da rede privada é provável que a proporção dos sobrenomes alemães seja bem mais significativa.

Não se pode, portanto, minimizar a importância do legado e da herança cultural que os imigrantes deixaram.

No entanto, me parece no mínimo honesto entender que os perto de 60 por cento da população, que tem outras origens, também tem direito a conhecer e cultivar suas raízes. E, sendo realista, a diversidades destas raízes é uma de grandes riquezas culturais da cidade…

… mas também um de seus maiores desafios.

Mesmo quando pensamos em termos históricos, esta diversidade é marcante. O alemão que viveu e se desenvolveu aqui, como indivíduo e como coletividade, logo se diferenciou culturalmente do alemão que ficou na Europa. Mesmo falando o dialeto hunsrück, mesmo cultivando artes herdadas da cultura ancestral, ele rapidamente transformou-se num tipo brasileiro.

Não apenas por comer batatas, aipim e milho, além de beber chá de erva-mate servido em cuias de porongos, coisas que só no continente americano existiam.

É que desde logo ele se relacionou com gente das outras etnias e culturas que formavam o povo brasileiro até então. E com elas continuou convivendo e se miscigenando, em todos os sentidos, mas especialmente no sentido cultural…

… entre eles, também com o negro, tronco majoritário da formação brasileira…

… e que, sempre teve presença importante na vida de nossa cidade e de nossa região. Não é por acidente que uma das antigas e tradicionais entidades associativas do município, a Sociedade Cruzeiro do Sul, foi fundada por negros, em 1922 – antes da emancipação política do município – e ainda hoje mantém a negritude como perfil de identificação imediata.

Os negros, escravizados, forros ou fugidos, já estavam aqui quando os imigrantes alemães chegaram. E com eles conviveram de imediato. E estiveram presentes em todos os movimentos migratórios que vieram a engrossar a população local e enriquecer sua cultura.

O assunto dá pano pra mangas, mas vale a provocação. Quem olhar com desassombro para nossa cultura atual, muito mais facilmente encontrará alguém cantando samba ou jogando capoeira do que um grupo que cultive o folclore alemão. Isto deveria nos fazer pensar, muito e com muita seriedade.

No mínimo deveria nos fazer olhar com muito respeito para a cultura de origem negra, inclusive e especialmente aqui, em nossa cidade.

E tá chegando o Carnaval aí, gente !!!

(*) um dos grandes valores que herdei de meu pai, Alberto Mosmann Filho, e do meu avô Mosmann, foi um anti-racismo firme, declarado, quase militante. Mais de uma vez ouvi meu avô dizer que “nós somos é brasileiros”. Mais de uma vez ouvi meu pai declarar que tinha nojo do racismo. Meu tio, Alceu, ex-prefeito desta cidade, foi um pioneiro em abrir as portas do emprego público para negros da cidade. Fazia isto de forma consciente e persistente, visando ampliar a integração do negro à sociedade. O respeito ao negro (assim como seu inverso, o racismo) também é um traço histórico e cultural de nossa cidade.

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