– Novo Hamburgo – 16/03/17 –

O Brasil não chegou a parar, ontem. Mas, seguramente, se coçou.

Em Novo Hamburgo, mais de 700 pessoas se concentraram na Praça do Imigrante e saíram em passeata pelas ruas do Centro, passando pelo IPASEM (instituto de previdência dos servidores públicos municipais). Pra ter noção do que isto significa, dá uma olhada nas fotos locais. É muuuuuuita gente!

MARCHA 2
foto postada por participantes nas redes sociais

A mesma coisa aconteceu em todo país (em São Paulo, 300 mil pessoas lotaram a avenida Paulista – e ouviram um discurso de Lula, que lidera as pesquisas de opinião para voltar à Presidência da República nas eleições de 2018.

LULA
foto: Mídia Ninja

 

Não é pouca coisa. É muuuuuita coisa! E muito importante.

Tão importante quanto os sorrisos das comerciárias (e alguns comerciários), na frente das lojas, acompanhando a caminhada aqui em Novo Hamburgo. Os sorrisos, os polegares em positivo, os aplausos… até alguns não tão poucos punhos sinalizando força!…

… e os panfletos, recebidos com interesse, lidos com atenção – coisa rara! Muitos foram dobrados e colocados nas bolsas. Vão ser lidos em casa, também pelos familiares.

Imagina o que pensaram quando assistiram (os que tiveram estômago para assistir), nos jornais televisivos nacionais, o ilegítimo governante Temer sem coragem de olhar para as câmeras ao mentir sobre a necessidade de “reforma” da Previdência Social. Só conseguiu olhar para alguém quando virou o rosto e se dirigiu aos seus pares (um monte de ministros, boa parte deles denunciados por corrupção), revelando, com as mãos se agitando de forma quase grotesca, um indisfarçável desprezo pela opinião pública.

O povo viu. E o povo sente.

As mensagens de alerta – e angústia – contra a destruição da previdência social estão entrando nos lares também através das escolas, nas conversas informais das profes com as mães e alguns pais. E nos bilhetes explicando que ia ter paralisação e porquê…

… em cartazes expostos na frente das escolas, traduzindo toda a inquietação causada pelo fim da perspectiva de vida digna na velhice.

A gente – digo a gente que é engajado, que entende existir uma possibilidade de transformação do mundo, tornando-o melhor e mais justo, através do trabalho, mas também percebe o perigo da degeneração social – se enche de esperança…

… mas tem que ficar de olho muito ligado, porque o jogo é muito pesado. Os números que estão rolando por aí, na discussão sobre quem mente, quem exagera, quem minimiza… dizem muito. Imagina cerca de 30 por cento dos recursos da Previdência Social, no orçamento brasileiro, sendo aproveitados para pagar juros ao sistema financeiro. É o que já acontece.

Agora, imagina o custo da Previdência Social se reduzir drasticamente – porque a aposentadoria fica cada vez mais difícil e até impossível para o trabalhador – mas a arrecadação se mantém, pois ele continua contribuindo.

O Sistema Financeiro, internacional e local (que já é quase a mesma coisa) esfrega as mãos…

… mas com a mesma intensidade, rói as unhas diante da perspectiva de este dinheiro não vir alimentar seus cofres.

É que o Sistema Financeiro, ao se tornar livre de controles, por força de acordos internacionais e nacionais inspirados no neoliberalismo, se tornou completamente irracional. Não tem mais medida de nada. Vive na iminência de uma corrida dos investidores e poupadores, a um mínimo boato, para sacar um dinheiro que simplesmente não existe, inventado num cassino de operações fantásticas…

Como num filme de terror, a ciranda enlouqueceu. O carrossel, cheio de crianças em trajes colegiais (*), foi arremessado ao espaço sideral! Sabe lá contra quê asteróide ou planeta poderá se espatifar!

Ele só continua a funcionar por duas razões. A primeira é que detém o controle sobre o fluxo de caixa e sobre as operações de crédito que viabilizam o comércio e os negócios – o que é um imenso poder. O outro é que, justamente exercitando este poder, encontrou nos Estados nacionais a fonte de recursos para dar carne real ao seu dinheiro fantasma. Não são mais os bancos que financiam os Estados, mas os Estados que mantém os bancos.

Por isto, o desespero de fazer aprovar esta reforma de qualquer maneira. A grande mídia não conseguiu omitir as manifestações que sacudiram o país, ontem, embora tenha feito um esforça enorme para minimizá-lo (o jornal NH, por exemplo, não mostrou a nossa manifestação na capa, como fazia no tempo das panelas…). Mas a abertura do Jornal da Globo, depois do futebol, pelo apresentador William Waack, foi praticamente um editorial dizendo, em suma: “queiram ou não queiram, a reforma tem que acontecer”.

É que o golpe foi feito pra isto. Foi financiado pra isto. Não deu tudo certo pra eles. As manifestações anti-golpe foram fortes, mas não o bastante para desmontar o projeto golpista. Com o rápido empobrecimento da população, porém, agora tornado dramático pela perspectiva de miséria na velhice, elas tendem a engrossar. Pior ainda pra eles: não conseguiram condenar o ex-presidente Lula e a credibilidade e a popularidade dele voltam a crescer, rápida e consistentemente.

Não se pense que o golpismo não calculou estes riscos. Enquanto ainda estamos comemorando, emocionados, a simpatia e, agora, a adesão popular às manifestações em defesa da Previdência, eles articulam uma reforma política capaz de evitar a vitória de Lula nas próximas eleições – ou sua influência decisiva, caso venham a prendê-lo de qualquer forma.

E o movimento popular que se ligue: no campo institucional, eles – os golpistas – dão um banho. Mobilizar contra a destruição da previdência é moleza. Difícil é botar o povo na rua em favor, por exemplo, de financiamento público para as campanhas eleitorais.

Nosso caminho é longo, íngreme e cheio de pedras.

(*) Quando falo em crianças no carrossel descontrolado, não é só uma metáfora. Estou falando, por exemplo, de crianças mortas naquele conflito doido do Oriente Médio; de crianças atravessando o Mediterrâneo, em fuga desesperada; de crianças sem futuro nos campos de refugiados… A sede de poder e a fome de lucros não têm limites éticos. Se fazem isto no Oriente Médio, porque não farão no Brasil?

 

 

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