… UM ASSASSINATO NO HOSPITAL MUNICIPAL E r$ 100 MILHÕES

– Novo Hamburgo – 02/03/17 –

Saiu hoje de manhã, no site do jornal NH – e imediatamente passou a correr no feissebuque – a notícia do assassinato, a rajadas de metralhadora, de um paciente internado no Hospital Municipal.

Poucos dias antes, com algum alarde de divulgação, a Prefeitura havia anunciado uma série de medidas a serem adotadas pela Fundação de Saúde de Novo Hamburgo diante da insegurança de suas instalações.

Como seria fácil uma crítica, agora, perguntando onde estão as medidas anunciadas? Crítica fácil e oportunista. Pois, justamente o anúncio das medidas sinalizou a atenção da administração municipal para um problema que, de tão real, acaba de se concretizar de forma trágica.

Ah, mas não havia nenhum policial na portaria na hora em que os bandidos entraram. É, parece que não havia mesmo. E, se houvesse, o que poderia fazer um policial contra bandidos armados de metralhadora? E, se houvesse, este mesmo policial estaria deixando de dar proteção talvez a uma escola, onde sua ausência também poderia resultar em algum problema sério.

Fazer este tipo de crítica não ajuda em nada, nem a resolver problemas, nem a esclarecer sobre a real dimensão dos problemas enfrentados, hoje, pela administração pública. Primeiro que o contingente de Guarda Municipal, mesmo sendo um dos mais expressivos do Estado, não é suficiente – e nunca será – para suprir a ausência de ação de quem efetivamente, conforme a Constituição Brasileira, é responsável pela Segurança Pública: o Governo do Estado.

As medidas de segurança anunciadas e em execução pela Administração da prefeita Fátima Daudt continuam merecendo aplauso pois, se não chegaram em tempo e/ou não foram suficientes para evitar um crime, por bárbaro que seja, irão salvar inúmeras outras vidas.

Dá pra criticar o governo municipal, mesmo assim? Claro! Pode-se criticá-lo por não adotar uma política contundente de defesa da segurança dos hamburguenses diante do governo do Estado. E mesmo assim, isto é discutível. A prefeita pode achar que um confronto com o governo do Estado traria resultados ainda piores para o Município, por truncar o diálogo.

Observo agora, dia 03, que ontem à tarde a Prefeita chamou entidades comunitárias focadas na segurança, sua equipe para tratar deste tema e representantes locais do Governo do Estado justamente para cobrar a responsabilidade de quem efetivamente a tem.

O efetivo da Brigada Militar e da Polícia Civil foi drasticamente reduzido durante o governo Sartori, mas vem diminuindo desde os anos 90 – excessão feita aos governos petistas de Olívio Dutra e Tarso Genro.

Desde então, os prefeitos de quase todos os municípios (os de Novo Hamburgo de maneira muito especial) tem destinado parcelas crescentes de seus orçamentos para suprir as deficiências do Estado.

Acomodada a opinião pública, os governos estaduais  voltavam a desinvestir em segurança, criando um ciclo perverso:

  • O Estado gasta seu (nosso) dinheiro “honrando” dívidas judicialmente contestáveis com a União que, por sua vez, gasta mais de metade de seu orçamento pagando juros de uma dívida que nem os governos de Lula e Dilma tiveram coragem de auditar…
  • Os Municípios assumem responsabilidades do Estado, despejando na Segurança Pública recursos que seriam destinados a outros setores, empobrecendo sua ação em áreas de interesse vital para a prevenção da violência, como a Cultura e o Desenvolvimento Econômico.
  • Aliviado da pressão, o Estado volta a desinvestir em Segurança – e Saúde… e Educação…, mas segue pagando juros…
  • Nós, desinformados por uma imprensa alarmista, sentimos o cutuco da inseguraça e passamos a exigir que o Município invista ainda mais no policiamento. Muita gente passa a criticar investimentos municipais em Cultura, como o Carnaval, por exemplo.
  • E o problema fica cada vez pior.
  • A propósito, você acha que a Reforma da Previdência proposta pelo ilegítimo Temer vai contribuir de quê forma para o fenômeno da violência no país?

O que quero dizer é que precisamos (a cidade, o Estado e o País) desembarcar da crítica fácil. Sem abidcar do confronto de ideias e de interesses. É possível defender pontos de vista sem apelar para o espetaculoso. Isto seria, de fato, uma novidade consistente em nossa vida política.

Me parece, porém, que não é esta a nova forma de fazer política que a prefeita prometeu ao fazer campanha eleitoral e, finalmente, se eleger e assumir a Prefeitura.

A maneira como este governo está informando a população é de fato das mais antigas vestimentas da mais velha política: usar números fora de contexto para espetacularizar a crítica ao adversário, neste caso, o governo anterior.

No relatório que apresentou à Câmara de Vereadores – mas, antes à Associação Comerical, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha – a prefeita pintou o quadro do inferno, dizendo que os controles patrimoniais da Prefeitura estavam uma bagunça e que estimava, aí, uma perda de R$ 100 milhões.

Mas, olha só onde estão estes R$ 100 milhões (espero que lhe seja possível ler na ilustração abaixo, extraída de cópia do citado relatório):

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Trata-se, na verdade, um valor apenas contábil. Claro que tem sua importância, mas o que está sendo medido é uma estimativa de depreciação de bens, não o sumiço de bens, como muitos estão entendendo e disseminando.

Desinformar não é uma nova forma de fazer política.

Outro número que também vem sendo ventilado é de que existiriam cerca de 21 mil ítens não encontrados. O que não está sendo dito é que foi a administração anterior que verificou a existência deste problema e separou estes ítens, para investigação.

Veja outra reprodução, abaixo:

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Até dá para criticar o tempo decorrido desde que esta medida foi tomada. Dá para dizer que havia sérias deficiências administrativas… mas não é bem da nova forma de fazer político deixar margem a suspeitas de desídia ou desonestidade. Isto, aliás, deve ser investigado, mas com o respeito devido a um antigo (e nem tudo que é antigo é ruim) preceito civilizatório: de que todos são inocentes até que se prove o contrário.

O pior desta prática é que ela funciona durante algum tempo. Mas, ao cabo de poucos anos, gera é descrédito para quem a cultivou. E para a população, passam-se mais alguns anos de política de acusações e farpas superficiais, sem que nunca se discutam os problemas realmente importantes.

E manter a população desinformada e descrente também é uma forma muito velha de fazer política.

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