Fui dar com os costados na Colônia de Férias do Sindicato dos Rodoviários de Porto Alegre (motoristas e cobradores), pra visitar minha cunhada Leda Souza. Um espetáculo raro: 97 pequenos apartamentos, construídos paulatinamente, do jeito que deu em cada momento, todos muito pequenos, mas com o que é necessário.

Minha cunhada é companheira de um dos diretores do Sindicato, Hélio de Oliveira Dibb, que já foi seu presidente e lembra que na sua gestão pôs a mão literalmente na massa e nos tijolos, para começar a construir a Colônia de Férias.

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Dibb (que colocou a mão na massa) e sua companheira Leda.

Cada bloco de apartamentos (são vários) tem um estilo diferente e tem um apelido criativo (e politizado). O que eu visitei era feito de tábuas e foi batizado como “Minha Casa, Minha Vida!”, em homenagem ao programa criado por Lula e Dilma (calma, o pessoal do Sindicato não é petista. Nem mesmo filiado à CUT). O dos apartamentos mais apertados, num bloco de dois andares, foi apelidado de “Carandiru”.

A diversidade dos estilos dos prédios está também na música, que se ouve em todos os cantos. É pagode, é sertanejo, é funk, é rap… de vez em quando… ué? Raul Seixas!

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Mas Nossa Senhora dos Navegantes (e/ou Iemanjá) postada na entrada do conjunto, abençoa a toda esta bagunça.

O que é comum é o cheiro de churrasco, também em tudo que é canto… e as muitas risadas. As churrasqueiras são coletivas. Num dos prédios, há também mesas coletivas, em espaços específicos destinados aos funcionários de cada empresa, aproveitando e também fomentando os vínculos de amizade entre eles.

O uso é inteiramente gratuito, por uma semana, para os sócios do Sindicato, que paga, além da manutenção do espaço, também a luz, a água e o próprio gás. Até ônibus são fretados pela entidade para trazer as famílias que não tem automóvel.

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Além disto, tem um ônibus permanente (foto acima) para levar o pessoal a passeios e festas fora da Colônia. Até os espetos são fornecidos pelo Sindicato e são devolvidos limpos, é claro.

Também os apartamentos devem ser entregues limpos, com a geladeira desligada e seca.  Isto nem sempre acontece, me confessou Leda… mas tem um pessoal do Sindicato que sempre dá uma conferida e dá um jeito nos casos de relaxamento.

O acesso aos apartamentos se dá por ordem de inscrição. Quem chega antes vai ocupando os melhores apartamentos. Quem se atrasa, acaba perdendo a vez. Tem gente que passa um dia inteiro na fila – 24 horas ou mais – para garantir sua vaga.

E, aí, falando em filas, me lembrei de Cuba. E em como o socialismo é necessariamente imperfeito, uma vez que é uma construção coletiva e popular… e o popular é humano.

Por outro lado, como, também humanamente, a semente socialista germina mesmo em países como o nosso, tão culturalmente capitalista e liberal.

Lembrei do velho mestre Darcy Ribeiro. Ele e Leonel Brizola, hoje oficialmente reconhecido como herói nacional, cunharam a expressão “Socialismo Moreno” e até foram bem criticados por outros setores da esquerda, por esta sua “invenção”. Darcy Ribeiro, antropólogo, no entanto, sabia bem o que estava dizendo e propondo. Quem ler sua obra máxima, “O Povo Brasileiro”, entenderá o que estou dizendo. (*)

Para mim faz muito sentido que o desenvolvimento de uma sociedade socialista tem muito a ver com o desenvolvimento dos seus sindicatos. Não estou dizendo que o Sindicato dos Rodoviários é última maravilha. Não está participando do movimento contra a Reforma da Previdência, por exemplo.

Mas é um sindicato que vive junto de suas bases. Sabe mobilizar a categoria nas suas campanhas salariais. Dibb e Leda cansam de estar nas garagens às 03h00 da madrugada, panfleteando e conversando com motoristas e cobradores. Está, agora, num duro enfrentamento com o novo prefeito de Porto Alegre, o Marchezan Jr., lutando contra sua pretensão de extinguir os cobradores nos ônibus da capital.

É interessante como acaba construindo uma colônia de férias que parece muito com uma experiência (por limitada que seja) que lembra o socialismo. A própria arquitetura do conjunto, que é modesta nos espaços individuais, mas privilegia os espaços coletivos, faz lembrar a visão de Bertrand Russel (**), ao descrever o que seria a arquitetura socialista.

Não admira que os Sindicatos estejam na mira das reformas que o governo golpista quer implantar a todo o custo. E, pensem comigo, se não há algo desta lógica, de tolher as entidades coletivas, em todo este preconceito contra as Escolas de Samba…

… não! eu não estou viajando!… Tou sabendo que Socialismo, cientificamente falando, na tradição marxista, é a propriedade coletiva dos meios de produção. No meu entendimento, porém, este é um objetivo a ser alcançado a longo prazo, talvez quando meus bisnetos forem bisavós. No caminho, porém, a gente precisa ir vivendo e aprendendo a jogar. E vai plantando sementes (***).

E a semente do socialismo (imperfeito, como imperfeitos somos todos nós) vai dando um jeito de germinar em todos os espaços de reunião coletiva e popular, não só nos partidos, não só nos grupos de intelectuais, não só nos sindicatos.

Aliás, a Colônia de Férias também tem um bloco de Carnaval. Desfilou, neste sábado, no Carnaval de Rua do Município de Pinhal. É a foto que ilustra o início deste artigo.

(*) Darcy Ribeiro foi tão criterioso ao trabalhar neste LIVRO (com maiúsculas, mesmo) que só começou a escrevê-lo depois de um longo estudo teórico (também publicado, com o nome de “O Processo Civilizatório”), que lhe desse bases seguras para empreender seu objetivo maior. Isso é o que se chama de intelectual sério e comprometido!

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(**) O livro é a coletânea “Elogio ao Ócio”. Bertrand Russel, matemático e filósofo inglês era um socialista radical, mas não marxista. Propunha a propriedade coletiva dos meios de produção, mas não acreditava que isto pudesse ser alcançado através de um processo revolucionário e pela implantação de uma ditadura do proletariado. Para ele, o socialismo será alcançado como resultado da evolução da sociedade humana.

(***) Um bom artigo sobre tema parecido é o que segue, sobre os limites encontrados pelo PT para desenvolver uma política pelo menos social-democrata enquanto esteve no governo do país: http://revistacult.uol.com.br/home/nunca-existiu-um-governo-do-pt/

 

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