O senhor que vocês vêem nesta foto é Cláudio Flores. Conhecem? Mais de 80 anos, aposentado como operário da construção civil… Vou tentar com outro nome: “Crush”, um dos fundadores da Escola de Samba Protegidos da Princesa Isabel, compos os sambas-enredo da Escola por cerca de 30 anos. Também ergueu muitas das paredes da quadra e confeccionou seus primeiros tambores.

Tive a alegria de reencontrá-lo, ontem, numa festa que a Velha Guarda da Escola realizou para homenagear muitas das pessoas que passaram por lá e ajudaram a Protegidos a ser uma das referências do Carnaval gaúcho. Não contei quantos foram os homenageados (mais de dez), mas a presidente da Velha Guarda, Lana Flores, deixou claro que numa festa só seria impossível homenagear a todos. Novas edições vão se suceder, durante o ano, para fazer esta justiça.

Lana, que foi madrinha de bateria e depois se tornou carnavalesca e foi autora de dezenas de temas enredo marcantes, proporcionou um evento alegre, com densidadade cultural (a porta bandeira brindou os presentes com um número de dança do ventre) e também muita emoção. A passista Rose Carrion, hoje diretora do Grupo Show da Cruzeiro do Sul, mostrou toda a exuberância, elegância e alegria explosiva que a tornaram um mito do Carnaval gaúcho e depois chorou ao lembrar do ex-presidente Sebastião Flores, o lendário Brás.

Mas, quero mesmo, é falar do Crush. Chegou à quadra apoiado nas suas muletas, andando vagarosamente e com muito esforço. Espero que entendam o que significa, em AMOR pela cultura de seu povo, o esforço de um homem com seus quase noventa anos para chegar à quadra de uma Escola de Samba. O mesmo amor presente nas lágrimas da Rose.

Crush estava triste. Conversamos bastante. Ele observou que o Carnaval está em crise em tudo que é cidade. Virou moda, disse ele, culpar o Carnaval pelas crises financeiras dos municípios. E emendou uma frase supreendente: “o Carnaval e… os aposentados … são os grandes culpados pelos problemas do país”. Procurei no seu rosto um sinalizinho que fosse de ironia, mas só vi tristeza. E ele concluiu: “Estão tirando tudo de nós”.

Também fui um dos homenageados – taí o diploma para ilustrar o fato! Escrevi quatro temas para a Escola, um em parceria com o próprio “Crush” e outro em parceria com a Lana Flores.

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Mas saí acabrunhado. Um homem bom e lutador como o Crush não merecia ver o que está vendo hoje…

… e interpreta com tanta lucidez.

Só não saí de lá completamente entristecido porque o próprio Crush me aliviou deste peso. Depois dos comentários pesados, fez uma pausa e sentenciou: “Isto não vai ficar assim. Não sei como, mas este povo vai reagir”.

Nova pausa e voltou ao tema da nossa conversa inicial: “O Carnaval também não vai morrer. Tenho esperança que esta juventude acorde. De repente, não precisa de nada, a gente desce o morro e faz um desfile lá embaixo, na Rondonia, mesmo. Não precisa nem muita fantasia. Se tiver bateria e samba, a gente alegra o povo!”

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