Já disse, num artigo anterior, que não concordo com o patrocínio de marcas de bebida alcoólica para o Carnaval.

Minha convicção se amplia ao ler o artigo “Sociedade Pediatria lança guia para estimular a prevenção ao consumo de álcool precoce entre os adolescentes” –

http://www.sbp.com.br/departamentos-cientificos/sociedade-pediatria-lanca-guia-para-estimular-a-prevencao-ao-consumo-de-alcool-precoce-entre-os-adolescentes/#.WJjMmd-8MCg.facebook

Entre as várias recomendações para combater o alarmante crescimento do alcoolismo entre adolescentes e até crianças, a Sociedade de Pediatria aponta:

restrições ao marketing, inclusive da cerveja…

regulação da propaganda…

A PROIBIÇÃO ao PATROCÍNIO E VENDA em atividades e eventos CULTURAIS , ESPORTIVOS e ARTÍSTICOS (os grifos são meus) que envolvam a participação de CRIANÇAS e ADOLESCENTES.

Tenho falado também que o Carnaval é mais que um evento, é uma mobilização comunitária e familiar que proporciona o cultivo de valores culturais como a ancestralidade, a valorização de idosos e crianças, e o próprio convívio familiar.

Carnaval sem criança não é Carnaval (estou falando do Carnaval brasileiro, aquele, de rua, criado pelo povo, civilizando uma festa que era quase troglodita – a grande diversão era jogar água servida (com fezes e urina) nos outros).

É um erro até grotesco permitir propaganda de bebida alcoólica neste tipo de mobilização popular, em torno de um evento que celebra a evolução cultural autenticamente brasileira, onde milhões de crianças buscam referências de vida e identidade.

Devo dizer que esta tem sido uma luta silenciosa, de conscientização contra os malefícios do álcool, que o Eduardo Tamborero, rapper talentoso que ocupou a Coordenadoria de Igualdade Racial do Município, nas gestões petistas. Com meu integral e participativo apoio, enquanto secretário municipal de Cultura.

Abolimos a distribuição gratuita de cerveja (e quitutes) no palanque oficial – o que também foi feito em respeito ao dinheiro público. Em todas as Escolas de Samba, sempre observamos que um dos grandes problemas das comunidades periféricas é o consumo de bebidas alcoólicas e que isto está em conflito com a tradição das copas, para financiar parte das atividades da Escola.

Está em conflito também com uma herança maldita dos tempos da escravidão, em que os cativos eram forçados a beber cachaça, todas as noites, para adormecerem logo e não conseguirem se articular. Até as crianças eram obrigadas a se embriagar.

Aliás, vale observar que o documento da Sociedade de Pediatria alerta para as consequências nefastas justamente do uso familiar da bebida alcoólica, tanto do ponto de vista orgânico (apontando o perigo do consumo durante gestação e amamentação) como do ponto de vista cultural (na glamourização da bebida em festas, celebrações… “bebemorações” familiares.

É uma luta longa e difícil. Não temos qualquer sucesso significativo para nos vangloriar. Pelo contrário, até alguma frustração.

Mas é justamente por persistirmos (eu e o Tamborero) nesta luta talvez inglória, mas certamente essencial, que alertamos para o contrasenso que é financiar o Carnaval através de patrocínio por mercadores de bebidas alcoólicas. Não estamos sozinhos. No ano passado, na Bahia, já houve um movimento forte neste sentido, também contestando a exclusividade da venda – e os sobrepreços – para os patrocinadores.

Os Filhos de Gandhi, aliás, desde sua fundação, na década de 50, não aceitam a bebida alcoólica em seus ensaios, eventos e desfiles.

É deste ponto de vista que acho justificável e necessário o investimento público no Carnaval popular. No entanto, investir não tem nada a ver com despejar dinheiro. É preciso aprofundar o conhecimento sobre a importância deste evento e sua potencialidade para promover o desenvolvimento cultural e social do nosso povo, com todas as suas consequências positivas na saúde, na educação, na segurança pública, na produtividade…

DO POPULAR AO IDIOTA

do Homem Arara, me obrigo a transcrever:

O Idiota não é o “Popular” de Veríssimo. Não é o que observa o linchamento. O Idiota é participativo. Está ali desferindo pontapés na cabeça do linchado e nem sabe porque. E nem quer saber. Quer é ser reconhecido como ótimo linchador.

O Idiota não tem opinião nenhuma, mas é capaz do mais feroz empenho depois que alguém lhe diz que conta com a sua inteligência e a sua honestidade !!!

Não tem partido, mas pode levar a bandeira de um e inventar danças e cânticos – contra e a favor; não importa do que nem de quem, desde que isto mostre cooooomo ele é inteligente. Ah!… e honesto.

Ele quer é ser aceito. Quer ser reconhecido por qualquer ato para sair de sua insignificância. Assim, fala coisas sobre as quais nunca pensou. Por ser e sentir-se fraco e menor, tende a aderir facilmente a discursos de força, apoiar bombas, militares, ditaduras, militares, torturadores, militares, etc…

Ah… e mais militares !!!

Houve um tempo, em que o Popular era dominante. Estava em cada esquina, as vezes em grupos, as vezes como horda de votantes sem ideia sobre em quem votar, ouvindo os discursos e comendo sanduíches. Assim, de certa forma e em algum momento, todos éramos Populares.

Hoje, prosperam os Idiotas. Até o Popular se idiotizou e quer por seu dedo no fato. A vontade doentia de ver sua digital impressa na História tem origem num sentimento insuportável de desimportância, que lhe cria a necessidade desesperada e cega de ter convicções inquestionáveis.

E este é o segredo da sua força.

O ser pensante, justamente por pensar dois pouquinhos, sabe que não é dono da verdade. Acredita no convencimento e chega a ficar feliz quando percebe que o outro tem algum ponto de razão. Pode até se alegrar por ter aprendido um pouco mais.

Para o Idiota, o simples vislumbre de uma possibilidade de o outro ter qualquer minúscula parcela de razão é uma ameaça gigantesca à sua integridade. A violência de seu ataque é proporcional ao medo de ser nada, uma inexistência no Universo.

Por isto, o Idiota tanto pode ser de direita como de esquerda. Não importa o conteúdo do que ele defende, importa que ele tem que ter razão. Ele não quer convencer, muito menos ser convencido. Ele quer vencer a discussão. Ele precisa vencer.

O Idiota quer ser. Não é. O Popular era. Podia ser medroso, confuso, mas era.

Tou com saudades do Popular. Mas ter saudades não me ajuda. Só dói. 

http://www.homemarara.com/?canal=outras_coisas&pag_int=&leitura=42

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