A cada dia, me parece mais claro que o governo da prefeita 20 por cento de Novo Hamburgo, Fátima Daudt está padecendo de um tipo sofrido de esquizofrenia.

De um lado ela quer MESMO ser uma representante de uma “nova” política de verdade, não só no nome. Dá sinais claros de que realmente quer pensar fora da caixinha (não só da caixinha tucana, mas de todas as velharias da nossa política).

De outro lado, porém, especialmente no trato com o passado recente e com as heranças políticas e administrativas que recebeu, a prática tem sido da mesma velha obtusidade de sempre. Às vezes, difícil de engolir.

Das coisas boas:

o exemplo que me é mais próximo, a nomeação de uma equipe técnica para a Secretaria de Cultura, sem ranço ideológico algum. Isto me enche de esperança, especialmente no desenvolvimento da Cultura de nossa cidade!

este exemplo autoriza acreditar que outros quadros de perfil técnico escolhidos para tocar o trabalho, em diferentes secretarias, tenham sido escolhidos também pela qualificação, sem considerações maiores quanto ao posicionamento partidário… 

… a manutenção, mesmo que provisória, da diretora-presidente do IPASEM (o instituto de seguridade e previdência dos servidores municipais), Eneida Genehr, observando e elogiando a importância da aprovação de sua gestão financeira pelo Tribunal de Contas do Estado… 

mas aí eu lembro que neste aspecto, de gestão financeira, também a gestão do seu antecessor, o ex-prefeito Luís Lauermann se destacou muito positivamente no Estado.

Bem, eu não ia esperar que ela fosse tecer loas à gestão de um adversário político, mas não precisava forçar a barra na crítica. O dramalhão da semana passada sobre o empréstimo do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, por exemplo, foi de fazer elefante ficar vermelho de vergonha, até parecer moranguinho.

SÓ FALTOU UMA FOTO DA SUPER FÁTIMA VINDO NOS SALVAR !!!

Primeiro que a divulgação de sua primeira reunião com o BID foi antecedida por uma articulada sucessão de notícias (“teasers” no jargão técnico marqueteiro) para chamar máxima atenção para o assunto.

E aí… tcham! tcham! tcham!…

a notícia espetaculosa de que Novo Hamburgo corre o perigo de perder US$ 21 bilhões do empréstimo que está sendo gestionado e negociado desde 2008 – e agora executado. Só faltou uma foto da super Fátima, vindo voando dos céus para nos salvar!

Na entrevista publicada no Hiena Gagá e na notícia divulgada pela Diretoria de Comunicação da Prefeitura, ela destacou que o BID havia enviado uma notificação, em agosto do ano passado, apontando problemas no desenvolvimento do projeto e no cronograma de investimentos.

Faltou informar à opinião pública que houve uma notificação posterior, na passagem de setembro para outubro, em que o BID aceita a argumentação da Prefeitura, mesmo que de forma crítica, ampliando os prazos existentes. Tanto que a nova prefeita tem seis meses para realizar ajustes que o Banco vier a solicitar e dar curso aos projetos e obras.

Podia também ter sido explicado que as obras de contrapartida, que contratualmente a Prefeitura deve executar com recursos próprios ou conquistados de outras fontes que não o Banco, estão bem adiantadas. E que elas são importantes para que o BID libere os investimentos sob sua responsabilidade. E que isto facilita em muito a vida da nova administração.

Era pedir demais, né?

Então, deixa que eu explico. O contrato estipula um investimento total de US$ 47,82 milhões (estamos falando em dólares que, hoje, em Reais, equivalem a perto de R$ 150 milhões). Metade deste valor está sendo financiado pelo Banco. A outra metade, algo em torno de R$ 75 milhões, é investimento da Prefeitura. Destes, a Prefeitura já concretizou perto de R$ 33 milhões.

A prefeita Fátima, portanto, precisa investir ou captar R$ 42 milhões para fazer jus a um investimento, ainda a ser realizado através do BID, de R$ 68 milhões (que correspondem aos US$ 21,77 milhões que a notícia diz que a cidade pode perder).

Não tá tãããão horrível assim, né?

TALVEZ NÃO FOSSE PEDIR DEMAIS…

Quero frisar que estes números não foram omitidos pela Prefeita ou nas notícias divulgadas – como foi omitida a segunda notificação, a que me referi algumas linhas acima. Foram, digamos assim, interpretados de forma a não destacar o esforço feito pela gestão anterior.

Enfim, a notícia podia dizer também que a Prefeitura, durante a gestão Lauermann, já concretizou 43 por cento dos investimentos que cabem a ela.

Mas, era pedir demais, né?

Talvez não fosse, se não estivéssemos tão acostumados à “velha política”.

Mas teria sido conveniente explicar que parte dos atrasos se devem a demoras na liberação de laudos ambientais, por exemplo, ou a exigências do próprio Banco nas regras licitatórias, que fritaram neurônios da equipe jurídica da Prefeitura.

Sabe porque seria conveniente? Porque a Prefeita e sua equipe vão enfrentar os mesmos problemas, logo ali adiante.

Olha só: o ex-prefeito Tarcísio, antecessor de Lauermann, levou quatro anos para negociar os termos do contrato com o BID. Celebrado o contrato é que se começam a elaborar os projetos, que não são poucos, nem pouco complicados. E se considerarmos que a partir de 2015 a cotação do dólar sofreu uma variação acentuada, exigindo revisão das projeções de preços e custos, os quatro anos da gestão do prefeito Luís não foram assim tãããão ruinosos (*).

É claro que conversei com algumas pessoas que trabalharam no grupo que acompanhou as negociações com o BID. Eles confirmaram, aliás, a crítica de que a equipe sofreu muitas mudanças nestes últimos quatro anos e que este fator de fato atrapalhou o andamento dos trabalhos. Frisaram, porém, que a principal dificuldade foi o relacionamento com os negociadores do BID. Digamos assim: eles pouco mostram os dentes e, quando mostram, não é para sorrir.

A equipe da prefeita Fátima, aliás, já sentiu isto na carne e é bom ficar de sobreaviso. A notícia publicada no Hiena Gagá deixou absolutamente claro que o tom do encontro foi áspero. A secretária de Desenvolvimento Econômico de Novo Hamburgo, Paraskevi Bessa Rodrigues atribuiu este clima pesado ao que ela qualifica como erros da gestão anterior. Devia ter chamado sua atenção que, por mais preocupantes que pudessem ser as informações, não justificariam tratamento duro a quem está chegando agora.

SERÁ QUE TEM ALGUÉM PENSANDO EM 2018?

É bom, portanto, ficar de sobreaviso. As negociações continuarão sendo muito ásperas. E haverá dificuldades novas. 

Daqui a alguns dias, por exemplo, a prefeita deve receber – se ainda não recebeu – representantes do povo que está movimentando a vida cultural e empreendedora de Hamburgo Velho. Estão especialmente preocupados com a forma como serão conduzidas as obras no bairro, quando forem instaladas as fiações subterrâneas e reassentadas as canalizações de água e esgoto. Temem que as ruas fiquem esburacadas e fechadas por longos períodos, acarretando sérios prejuízos ao comércio local e querem, portanto, propor que as obras sejam executadas quarteirão por quarteirão.

Bem, isto não é nada usual. Vai dar muito trabalho convencer os técnicos do BID de que é realmente importante. E é importante. Ou convencer o pessoal de Hamburgo Velho de que vão ter que se conformar a pensar dentro da caixinha. Seria mais fácil se, desde o início, tivessem mostrado que as dificuldades na execução de um projeto do vulto do empréstimo do BID não derivam apenas da incompetência do opositor.

Isto de ficar jogando culpas sobre o antecessor ou sobre a oposição, num jogo maniqueísta que está fazendo tanto mal ao nosso país e ao nosso povo, além de ser uma velharia política, é desnecessário. O prefeito Luís já perdeu as eleições.

Ou será que tem alguém pensando em 2018? Tem alguma lógica, pelo menos nos parâmetros de pensamento da velha política. Mas é perda de tempo. Acho que melhor seria fazer uma coisa realmente nova, mostrar o tamanho do problema e, especialmente, dar uma atenção bem especial àquele povo de Hamburgo Velho, que não está nem um pouco preocupado com eleições passadas ou futuras, mas com o que vai acontecer no seu bairro. Precisa muito diálogo com esta gente que, aliás, já que estamos falando em novidades e velharias, está fazendo algo realmente importante pelo bom futuro da nossa cidade.

(*) Tem prefeito por aí que iria de joelhos até o santuário do Padre Reus, em agradecimento, se encontrasse o município em situação parecida com a que a prefeita Fátima recebeu do seu antecessor.

A maravilhosa foto é de Luís Antonio Averbeck, na HamburgerbergFest que a Associação dos Amigos e Empreendedores de Hamburgo Velho teimaram e lograram realizar, em outubro do ano passado (com apoio da Prefeitura, embora o prefeito Luís já tivesse perdido a eleição e contando os centavos pra não perder o controle das finanças).

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