Não quero entristecê-los ainda mais um pouco, mas fazer o quê? Como não falar?…

o ministro Teori Zavascki do Supremo Tribunal Federal, morto no acidente de avião de quinta-feira à tarde…

estava indo para a paradisíaca praia de Paraty, na companhia de um empresário que enfrentava julgamento no Supremo Tribunal Federal !!!!!!!!!!!!

É isto mesmo: o empresário Carlos Alberto Fernandes Filgueiras, morto no mesmo acidente, tinha vários outros negócios, além do Hotel Emiliano que vem sendo citado nas notícias do grande jornalequismo brasileiro. E… uma destas suas empresas há pouco havia sido condenada por crime ambiental. Ele estava recorrendo ao Supremo Tribunal Federal, conforme apurado e publicado pelo jornalista Fernando Brito, ontem (dia 19/01) no site Tijolaço.

Se quiser, confira o link:

http://www.tijolaco.com.br/blog/exclusivo-amigo-que-levava-teoria-era-reu-no-stf/ .

Mais: Filgueiras, que tão gentilmente convidou o juiz para um reparador descanso em sua propriedade na praia carioca, também era sócio do Banco BTG Pactual, cujo ex-presidente, André Esteves, figura entre os investigados na Operação Lava Jato.

Ainda mais: foi justamente Teori Zavascki quem revogou a prisão preventiva de Esteves, em fins de 2015. Em 2016, o juiz suspendeu as medidas cautelares contra o banqueiro, acusado de propina para obstruir a Lava-Jato. A informação é do jornalista Alceu Castilhos, no blog Outras Palavras.

Quer conferir?

http://outraspalavras.net/deolhonosruralistas/2017/01/20/filgueiras-amigo-de-teori-era-socio-do-btg-pactual-investigado-na-lava-jato/

O jornalista Castilhos apurou também que Filgueiras era especialista em participar de empresas que vivem mudando de nome e CNPJ, mas não de sócios.

Triste, né? Mas não se amofine. Isto é dos usos e costumes brasileiros.

ALGUNS ESPANTOS BROTAM EM MINHA CABEÇA

Lembram do dr. Ulysses? Nosso herói das diretas e da Constituição Cidadã de 88? Morreu também num acidente aéreo, em 1992, num helicóptero que o levava de Angra dos Reis a São Paulo (e caiu justamente no mar de Paraty).

O helicóptero que gentilmente o conduzia pertencia a uma empresa do ramo de alimentação, o Moinho São Jorge, da família Chammas e com alguns não tão poucos negócios com o governo federal.

E o dr. Ulysses voltava de um fim de semana prolongado numa casa do Condomínio Portogalo, gentilmente cedida pelo empresário Luiz Eduardo Guinle. A família Guinle, da elite financeira carioca e brasileira, tinha negócios nas áreas de produção e distribuição de energia elétrica, bancos, construção civil e hotelaria…

Alguns espantos brotam em minha cabeça ao ver estas coincidências:

– como são gentis estes grandes empresários que tem negócios com o governo!…

– como nossas autoridades gostam de passar uns diazinhos em praias pardisíacas!…

Vocês, leitores, que conseguem atravessar minhas ondas de sarcasmo entristecido, devem estar pensando que eu quero demonstrar apenas que o dr. Ulysses e, agora, o dr. Teori, eram grandes crápulas.

Pelo contrário: estou querendo demonstrar apenas que eram humanos.

Aliás, tem humanidade que não acaba mais na vida institucional brasileira (e não só brasileira, pois estas fraquezas humanas se multiplicam na vida institucional e negocial, em TODOS os países do mundo)!

VIAJAM JUNTOS, SÃO BONS AMIGOS”

Para ilustrar, me permito, com licença dele, reproduzir um texto do amigo Marcos Leonel Scheffel, ao comentar justamente a humana amizade inaceitável entre juiz e réu:

Aqui na republiqueta tudo é muito diferente. Há uma espécie de ‘fraternidade’ que não se explica: acusados, potenciais réus e até réus financiam e confraternizam em festas com seus julgadores…

viajam juntos…

são bons amigos, tornando, até, as vezes, o julgamento desnecessário, diante de tanta camaradarem…

uma delaçãozinha premiada aqui, uma entrevista sob os holofotes ali, um prêmio ‘Faz Diferença’, um acordo prévio entre cavalheiros, uma negociação entre amigos que tem interesses em comum…

tudo funciona bem, à base da cordialidade…

Faz parte da nossa justiça toda esta ‘afeição’. Somos um povo que cultiva a ‘boa amizade’ (às vezes perigosas). Ninguém mais se espanta…”

Aspas fechadas.

É o dr. Moro, sorridente, em dezenas de festas promovidas por gente do PSDB (partido do seu pai, do seu irmão, da sua esposa, mas não dele), recebendo prêmios da rede Globo, chamado a palestras nos Estados Unidos…

É o dr. Gilmar Mendes, aceitando convite para ir a Portugal, do presidente ilegítimo Michel Temer, a quem está julgando em processo que pode invalidar as eleições de 2014…

É o dr. Moro, junto com o dr. Gilmar, almoçando em restaurante chique com o líder tucano José Serra…

Nada disto espanta! Só espanta o sitiozinho que o presidente Lula frequentava, no interior de São Paulo, com dois pedalinhos no açude!…

O DIABO NÃO FEDE A ENXOFRE

Mas nosso assunto, agora é o dr. Teori.

Era ele quem tinha nas mãos e podia validar – e divuglar – a famosa delação da Odebrecht, ameaçando o pescoço de uns 147,68 por cento dos políticos hoje no governo e, talvez, também até gente do PT que, como vocês bem sabem, é o único e o maior e o único grande maior partido culpado pela corrupção no Brasil.

O dr. Teori era também o juiz que não tinha se curvado inteiramente às pressões do grande jornalequismo nacional e de organizações de perfil terrorista, que divulgavam o endereço de sua residência e de seus familiares, provocando manifestantes a pressioná-lo, de forma agressiva, simplesmente por ter censurado o juiz Moro no episódio em que ilegalmente promoveu o vazamento das conversas gravadas entre Lula e a presidente Dilma.

Quem há de duvidar que sua morte foi morte matada? Esta, aliás, já é uma convicção na opinião pública. A esquerda trata de levantar esta dúvida. Enquanto a extrema direita, que antes o apresentava como canalha-mor do judiciário, agora o transforma em exemplo de moralidade pública e aproveita para pedir “intervenção”…

E o que nos resta de tudo isto?

Talvez só uma tristeza imensa? E a certeza de que as festas chiques e os fins de semana no paraíso e as viagens discretas em aviões e helicópteros de gentis amigos continuarão acontecendo?

Mas quero lembrar também de um piazito chamado Teori, nascido lá no interior oeste de Santa Catarina, que foi estudar para padre e acabou virando juiz e foi se tornando importante até chegar ao Supremo Tribunal Federal.

Acho sinceramente que ele tentou ser honesto e digno num meio em que se encontram muitos amigos gentis, perfumados, sempre prontos a oferecer algum mimo absolutamente desinteressado.

Me veio à cabeça, não sei porque, que o diabo não é um velho feio e horrendo, que fede a enxofre. Ele é gentil, perfumado e sempre está pronto a oferecer algum mimo absolutamente desinteressado.

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