Na noite desta última quinta-feira (dia 11/01), se reuniram os carnavalescos de Novo Hamburgo e São Leopoldo com seus respectivos Secretários de Cultura.

Embora eu ainda não tenha os detalhes do que foi tratado nas duas reuniões, sei que são as duas únicas cidades da região metropolitana onde as notícias não são tão ruins para o povo do Carnaval…

mas, antes de seguir com as informações, quero contar uma história, real, do Carnaval brasileiro. Sabem a origem do celebrado bloco baiano, Filhos de Gandhi?

UMA MUDANÇA RADICAL NO CARNAVAL BAIAN… BRASILEIRO

Então… lá em meados da década de 40 do século passado, ainda sem este nome, era o bloco dos estivadores do porto de Salvador. Organizados num Sindicato poderoso, eles eram trabalhadores remunerados bem acima da média do povo baiano. Seu bloco carnavalesco era conhecido e admirado pelo bom gosto refinado e, especialmente, pela riqueza das fantasias.

Chegou ao governo do país, porém, o general Eurico Gaspar Dutra, que tratou os sindicatos com mão de ferro. Para os estivadores de Salvador, isto significou uma queda dramática de renda, fazendo com que eles se aproximassem da linha de pobreza.

Estivadores, como devíamos todos saber, além de fortes e musculosos, são trabalhadores com nível cultural diferenciado, especialmente num porto internacional como é o de Salvador, em razão dos muitos contatos com navegantes do mundo inteiro. Os baianos não fugiam à regra.

Assim, uma de suas formas de resistência foi assumir a pobreza e mudar radicalmente o conceito de seu bloco. Optaram por fantasias propositalmente muito pobres (a maior parte feita com lençóis que tinham em casa), mas extrema força no conteúdo cultural.

É importante lembrar que, naquela época, Gandhi ainda não era um líder mundialmente reconhecido. Ele mal começava sua jornada pacifista pela independência da Índia, então sob o jugo do Império Britânico. O fato de assumi-lo como referência, naquela época, é prova e indicativo do impressionante nível cultural dos estivadores baianos.

Hoje, quem não sabe quem foi Gandhi e quem são o bloco Filhos de Gandhi?

NOVO HAMBURGO E SÃO LEOPOLDO TEM BOAS NOTÍCIAS, MAS NEM TANTO…

Posso voltar, agora, a comentar as coisas do nosso carnaval gaúcho, este ano. Eu falava que Novo Hamburgo e São Leopoldo são as duas únicas cidades da região metropolitana onde as notícias não são tão ruins.

Nas duas, a informação que tenho é de que os governos municipais querem manter os desfiles de rua.

Nas duas, as Secretarias de Cultura estão sob comando de gente que tem conhecimento profundo e comprometimento sincero com a Cultura: Ralfe Cardoso, em Novo Hamburgo, e Ismael Mendonça, em São Leo, com suas respectivas equipes.

Nas duas, existem dificuldades, de ordem diferente, em razão de diferentes realidades.

Em Novo Hamburgo, a situação financeira do Município é bem mais tranquila (mérito que não vou deixar de destacar, do prefeito Luís, na gestão de 2013 a 2016). No entanto, a ausência de uma entidade que congregue as escolas, combinada com a entrada em vigor de nova legislação federal regulando os repasses de dinheiro público a entidades comunitárias, cria dúvidas sobre a forma legalmente correta de fazer os investimentos necessários.

Estas dúvidas já corroeram neurônios da equipe do Lauermann e agora tiram o sono da equipe da atual prefeita, Fátima Daudt.

Em São Leo, a situação financeira é o maior problema. É dramática.

Em ambos os casos, as Secretarias de Cultura querem conversar muito com o povo do Carnaval, para buscar um consenso sobre como se resolvem estas questões.

Em ambos os casos, todo mundo dá graças a Deus que neste ano o Carnaval acontece no finzinho de fevereiro. Dá um tempinho (não tanto) para respirar e conversar. Menos chance de fazer bobagem.

O QUADRO DA DOR… OU DO DESAFIO?

No resto da região metropolitana, todos os carnavais com mais tradição estão seriamente ameaçados, quando já não foram abandonados.

Em Esteio, havia a informação de que os desfiles aconteceriam. A Prefeitura está recuando.

Em Canoas, a administração municipal até parece querer investir no desfile, mas há sérios problemas na prestação de contas dos eventos anteriores, por parte da entidade que congrega as Escolas de Samba.

Em Porto Alegre, aquela tristeza: a proposta do novo prefeito Marchezan, que inicia seu mandato dirigindo um trator e alardeando pavor financeiro, é esquecer a festa deste ano e pensar em 2018, condicionando tudo à obtenção de patrocínio. É a visão da Cultura mercantilizada, esquecida como preocupação obrigatório do poder público.

Em Estância Velha, a conversa é fazer no máximo uma muambazinha, como já aconteceu no ano passado… E pensar só em 2018…

O QUADRO DO DESAFIO

Tem coisa muito séria a ser discutida sobre todo este retrocesso cultural. A falta de dinheiro é uma realidade, mas a falta de entendimento da importância cultural do Carnaval é um problema ainda mais grave.

Esta história de buscar patrocínio é querer jogar o Carnaval nas mãos das empresas de bebida alcoólica – para depois o preconceito dizer que Carnaval é só beberagem (tipo uma Oktoberfest, só que contra esta não há qualquer preconceito).

O poder público deve, sim, investir no Carnaval. Não deve se omitir. Não deve terceirizar a responsabilidade. Deve entender que o Carnaval de rua é uma manifestação cultural que congrega famílias, que preserva e promove valores culturais e éticos construtivos para a sociedade, que desenvolve a arte e a cultura populares.

Cegos os que só vêem bundas e sensualidade (embora a sensualidade seja linda!) num desfile que tem muito mais baianas, alas de famílias, alas de crianças, alas de velha guarda, na avenida. E num público formado por pais e mães, avós, avôs, netos, tios, tias, padrinhos, sobrinhos e sobrinhas, irmãos, primos… Como podem não enxergar o que é tão evidente?

Como podem não enxergar as dezenas de bebês, nos colos das mamães, nas arquibancadas? Como podem não perceber o ambiente familiar de alegria e confraternização? 

Quase ruminantes os que criticam a participação de gente de outras cidades nos desfiles em cada município e dentro das Escolas. Não sabem que estabelecer laços de convivência e apoio mútuo é parte da História e da Cultura carnavalesca, em todo o país. Não percebem que o pior que se pode fazer, se queremos desenvolvimento cultural, é pensar cada cidade como uma ilha.

Mesmo assim, os tempos são difíceis. A carência financeira é óbvia (embora nunca falte dinheiro público para “honrar” compromissos com o capital financeiro, né?). A força política do preconceito social, cultural e étnico não pode ser ignorada.

Tem que saber ler a realidade. É correto exigir investimento do Poder Público na cultura popular. Mas não dá pra depender só dele.

E é por isto que eu digo, com serena convicção, que esta crise toda vai é fortalecer o Carnaval, aqui, na região metropolitana, no Estado e no país.

Vão se multiplicar os Filhos de Gandhi.

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