Logo depois do desastre ambiental e climático de Rolante e Riozinho, com seus reflexos no abastecimento de água de cidades tão distantes como Campo Bom, Novo Hamburgo e São Leo, recebi uma informação muito grave. Diferente do que havia sido informado à população, o problema teria sido causado por um grande deslizamento, numa área desmatada irregularmente.

Ferveu meu sangue de adolescente rebelde que sobrevive nestas veias sexagenárias! Decidi conferir e logo busquei contato com o Movimento Roessler, entidade tão combativa quanto prudente na defesa do ambiente natural. Demorou um pouco, mas veio o esclarecimento. Como certamente não fui o único a receber a informação, trato de publicar o esclarecimento do Roessler. Nem tudo que acontece de ruim neste mundo é culpa direta de algum especulador inescrupuloso.

Segue minha pergunta:

Boa noite, pessoal ! De volta à minha profissão de jornalista, estou interessado no desastre de Riozinho e Rolante. Ouvi alguns comentários informando que o problema não foi por causa de centenas de pequenos deslizamentos, mas por causa de um grande deslizamento, de uma área desmatada irregularmente. Vocês tem alguma informação sobre isto? Se puderem me responder, agradeço demais…

E a resposta:

Olá Carlos, tudo bem? desculpa nossa demora em responder…

As informações que temos é que houve uma grande chuva nas cabeceiras dos rios formadores do Rolante (mais de cem milímetros em 3 horas), depois de vários dias de chuva. O solo estava saturado de água, o que aumenta o seu peso e facilita deslizamentos. Houve muito raio e trovão na noite, que aumentou a trepidação do ar e acelerou os deslizamentos. Isto criou pontos de concentração de terra nas partes mais estreitas dos rios, represando a água.

Quando o peso da água rompeu as barreiras de terra veio tudo abaixo de golpe, criando uma onda de grande proporção. O que se chama, no Paraná, de cabeça dágua. Um fenômeno devastador.

Não há informações de desmatamentos em grandes proporções naquela região. É uma região com muita mata ainda. Parte dela protegida na FLONA de São Francisco. Estivemos lá no Fim da Picada de outubro de 2015.

Um período de muita chuva pode causar deslizamento mesmo em regiões com mata se o solo for raso. A água infiltra entre o solo e a rocha e forma um filme lubrificante que pode acelerar a descida de terra. Além disto o solo molhado pode triplicar de peso.

Além de inundar as cidades e vilas logo abaixo, o fenômeno aumentou muito a turbidez da água (mais de 60 vezes a turbidez normal), o que levou à suspensão da captação da água para tratamento para a população.

Um efeito colateral disto é o aumento de carga orgânica no rio devido ao arraste de material para o rio. Isto pode diminuir a oxigenação do rio, sim, mas, como também veio muita água junto, a diluição e a agitação da água pode compensar a falta de oxigênio decorrente. Os peixes podem ter subido para respirar porque o lodo em suspensão pode prejudicar o funcionamento das guelras devido aos sedimentos.”

Valeu, pessoal do Roessler. Nada como pés no chão e cabeça na verdade. É parecido com o bom jornalismo: serve para esclarecer, não só para denunciar.

A foto é de Edna Cardoso, divulgada pela Prefeitura de Rolante. (mas aquela garrafa pet, boiando nas águas invasoras é problema do capitalismo internacional, sim!).

Anúncios