Não dá pra negar que o governo da prefeita 20 por cento, Fátima Daudt, de Novo Hamburgo, está me surpreendendo.

Mas, com a mesma honestidade, devo dizer: em parte!

Quando reflito sobre as primeiras notícias veiculadas sobre sua administração, vejo que há coisas realmente novas. Mas também está presente a tal velha política, em que o “marketing político” tem lugar de destaque.

E antes mesmo da eleição, eu já vinha me dando conta de que a campanha da hoje Prefeita chamava a atenção pela qualidade do que se costuma chamar de “marketing político”(*). Ela abusou, por exemplo, do recurso de falar em “nova” política, que, embora seja uma das estratégias mais velhas de campanha eleitoral, continua eficaz.

De qualquer forma, ela começou com uma surpresa muito boa na escolha de parte considerável dos secretários e a estruturação de suas equipes de trabalho. O exemplo que melhor conheço é o da área da Cultura. Negar a competência e o comprometimento do secretário Ralfe Cardoso e da equipe que ele montou ultrapassaria as raias da burrice para chegar ao mau-caratismo.

Em outras áreas da gestão, é possível alimentar a esperança de que o mesmo esteja acontecendo.

Mas, me intriga exatamente o fato de que esta escolha deveria ser a prioridade marqueteira do novo governo. Se sua conduta na comunicação pública fosse centrada exatamente na qualificação da equipe, não precisava resvalar na velha política de tentar desconstruir o governo anterior, no caso o do prefeito Luís Lauermann.

Ir ao jornal dizer que a Casa de Bombas da Vila Palmeira é uma bomba, como fizeram através de reportagem publicada ontem no “Hiena Gagá” (**) é coisa mais antiga e ultrapassada do que cárie. Não resiste a dois minutos de reflexão honesta.

Até pode ser verdade que o secretário de Obras e ex-prefeito de Campo Bom, Faisal Karam (***), tenha encontrado apenas três bombas funcionando (das sete existentes). Mas não é verdade que isto tenha surpreedido o político. Existia a necessidade de reparos e, dada a dificuldade de contratá-los, a gestão do prefeito Lauermann optou, como solução proviória, pela locação de equipamentos junto à SEMAE, de São Leopoldo. Tanto é que, graças a esta solução, na última grande enxurrada de 2016, no mês de dezembro, cinco bombas funcionaram normalmente.

E isto foi informado na transição. E, se não tivesse sido informado, obrigatoriamente teria que ser perguntado.

Podiam até ter criticado a gestão do prefeito Luís pela lentidão na contratação de uma solução definitiva, mas nunca dizer que havia uma situação de descontrole. Porque chega a ser um disparate!!! Quem mora nas vilas sabe exatamente a diferença que há entre as chuvaradas e suas consequências antes e depois das gestões petistas de Tarcísio e Luís.

Bobagem também qualquer tentativa de fazer parecer que a cidade enfrenta um caos financeiro. Raríssimas cidades no Estado conseguiram a virada do ano com a saúde financeira de Novo Hamburgo. Ora, a Prefeitura pagou seus servidores rigorosamente em dia. Concedeu aumento salarial repondo a inflação. Manteve e ampliou os serviços de saúde, mesmo com os cruéis atrasos de repasses do governo do Estado. É só cruzar o Rio do Sinos para sentir a diferença.

E ainda a Prefeita Fátima encontrou recurso em caixa, suficiente para antecipar o pagamento à empresa que cuida emergencialmente da coleta do lixo, de forma a normalizar o serviço (é aquela situação, dos funcionários da concessionária privada do serviço público, que não recebem em dia e, em protesto, apelam para ações grevistas). Imagino que, se o prefeito Luís tivesse tomado esta atitude, de antecipar qualquer pagamento, mesmo que fosse uma medida acertada – como acertadíssima foi a decisão da prefeita Fátima – ele seria crucificado e acusado até de crime…

Produtivo mesmo, para a construção de sua imagem e de sua administração, seria a prefeita buscar manchetes para sua iniciativa de ir a Brasília, levando consistente e competente equipe para um diálogo profundo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID sobre o andamento das obras e programas financiados pelo Banco. Taí um campo onde o perfil técnico e realizador que ela deseja conferir ao seu governo pode ser exibido para a cidade, com benefícios imediatos para seu desenvolvimento econômico. Mas isto fica como notícia secundária de página 06. Vá entender… 

Enfim, há uma contradição entre as possibilidades de marketing construtivo do governo municipal, enfatizando coisas que podem realmente ser novidade na política, e as ações que vem sendo, de fato, postas em prática. O que estou adivinhando, enfim, é que há um descompasso (****) entre as ideias de gestão isenta e profissional que a prefeita enfatiza desejar e as práticas concretas de parte de sua equipe.

Tem coisas sendo feitas que me parecem mais show do que ação efetiva. Ontem, por exemplo, o número de máquinas e pessoas com uniforme cor de laranja, trabalhando na limpeza da rua Guia Lopes foi de super chamar a atenção. Às vezes, porém, o parecer não ajuda o fazer.

Os problemas de disputa interna de poder já começam a se revelar, na forma de fazer política e também nas primeiras críticas que a prefeita recebe do seu próprio campo político, sendo questionada até com dureza justamente quando tenta cumprir sua promessa de realizar uma gestão que priorize a eficiência técnica, colocando-a acima de interesses político-partidários. No entanto, está visto que, se os técnicos tem um mínimo de coloração ideológica divergente do ideário tucano, para muitos a competência deixa de ser considerada como um critério decisivo… às vezes sequer como critério! 

Eu, portanto, como macaco velho (dinossauro velho, até) fico com minhas barbas de molho… De tudo que aprendi na política, o mais importante é que ela não é coisa de anjinhos, nem de terríveis demônios. É coisa humana. 

(*) Característica, aliás, de boa parte das campanhas eleitorais do PSDB, no país. Nas eleições do ano passado, em todo o país, os tucanos priorizaram claramente a conquista do poder executivo, deixando em segundo plano as campanhas para o legislativo. É o que se viu com muita nitidez em Novo Hamburgo.

(**) Apelido sarcástico que um grupo de militantes culturais da década de 80 conferiu ao nosso principal jornal… através de um jornalzinho alternativo bem humorado que fez muita gente rir muito, naquela época.

(***) Karam, aliás, sofre com mesmo tipo de prática, no município que deixou de governar e onde não conseguiu eleger seu sucessor. O novo prefeito, Luciano Orsi, do PDT, já abriu artilharia para qualificar como “trágica” a herança financeira do seu antecessor.  

(****) E quando falo em descompasso, lembro de um conselho que recebi do meu tio, Alceu Mosmann, que foi prefeito da cidade nos idos de 69 a 72. Nós divergíamos politicamente, mas ele era um sábio tolerante e experimentado e costumava me avisar: “o maior perigo não é o adversário, mas o companheiro…”.

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