Quem praguejou por causa da falta de água, na última sexta-feira, em Campo Bom e Novo Hamburgo, talvez não tenha se dado conta de que a origem deste problema estava a uns 50 quilômetros ao leste, nos pequenos municípios de Rolante e Riozinho…

pequenos, friso, só na nossa visão humana deformada e egoísta… a gente acha que graaaaande é a cidade que abriga muitas pessoas, sem considerar a importância de matas, campos, rios, banhados e seus outros habitantes, plantas e animais.

A tragédia climática (acho que seria melhor chamá-la de tragédia ambiental) que se abateu sobre as duas cidades na noite de quinta-feira, com as águas invadindo ruas e casas, desabrigando centenas de famílias, ocasionou também a falta de água nas torneiras de cidades dezenas de quilômetros distantes, como Campo Bom e Novo Hamburgo.

BOMBA D’ÁGUA É QUE NEM DINAMITE

A enchente, em Rolante e Riozinho, foi avassaladora. Em poucos minutos, os riachos e arroios que alimentam os rios que cortam a região (Rolante e Sinos) saíram de seus leitos, invadindo casas, correndo pelas ruas, arrastando carros… um pavor!

Foi bem o que se pode chamar de bomba d’água… bomba! Mesmo! Poder destruidor de dinamite.

Em três horinhas, choveu mais de metade da média mensal em janeiro destas cidades. Esta água encharcou as encostas de morros, provocando centenas de deslizamentos na região, que entupiram os leitos e represaram toda esta água em córregos, arroios e riachos… A água continuou caindo naquele volume doido, até romper as pequenas represas, quase que a um só tempo.

Todo este entulho e barro foi arrastado para o Rio dos Sinos, em tal volume que, cinquenta quilômetros abaixo, a Corsan e a Comusa, companhias de abastecimento de água que operam em Novo Hamburgo e Campo Bom, tiveram que interromper a captação, sob pena de grave encrenca em seus equipamentos.

NEM VAI SER MAIS MANCHETE DE JORNAL!

Por aí, dá para dimensionar a violência da tempestade. Coisa que está se tornando tão comum que periga, daqui a pouco, nem ser mais manchete de jornal.

Puxando só um pouquinho pela memória:

– em 2013, tivemos um volume de chuvas que bateu recordes históricos, provocando enchentes e desabrigando milhares de famílias (eu insisto em lembrar o desabrigo de famílias, justamente pra tocar o coração dos leitores, para que sintam a violência concreta destes desastres naturais), em todas as cidades atravessadas pelo rio dos Sinos.

– em 2015 os volumes foram ainda maiores e, desta vez, em dois meses (julho e outubro). Desta vez, porém, em Novo Hamburgo, os problemas se limitaram a alagamentos localizados, graças aos investimentos em macrodrenagem iniciados pelo prefeito Tarcísio e concluídos pelo Luís Lauermann. Nas demais cidades, o caos se repetiu.

– em 31 de janeiro de 2014, Novo Hamburgo foi devastada por uma tempestade que os metereólogos explicaram como uma “micro-explosão cósmica”. Nas duas semanas posteriores, em duas noites, choveu nesta região (do Vale do Sinos a Torres) o volume médio de um mês inteiro em poucas horas.

– no ano passado, tivemos o inverno mais doido dos últimos dois séculos. Desde que se começaram a medir as temperaturas de forma metódica, este inverno teve os dias mais frios dos últimos cinquentas anos…

e os dias mais quentes dos últimos cem anos…

E EU COM ISTO?

e tem gente fazendo cocô no rio Tramandaí, achando que não tem nada a ver com isto!

preciso falar dos acontecimentos em nível nacional e internacional?

lembrar que nos países andinos a seca já atinge o abastecimento de água das grandes cidades?

… e que é dos Andes que vem a maior parte das águas amazônicas?

que o monte Kilimanjaro já quase não tem mais neve, ameaçando o rio Nilo, principal fonte de água do norte da África?

que também é visível o derretimento das neves do Himalaia, ameaçando especialmente os rios que abastecem a China?

Os grandes meios de desinformação de massa parecem não perceber, mas o desastre ambiental já é uma das causas (ainda não a principal) da crise econômica planetária que estamos vivendo.

O celebrado ecologista gaúcho José Lutzemberger (filho de uma hamburguense, da linhagem dos Kroeff) já advertia sobre isto desde o início da década de 70 do século passado – há mais de quarenta anos!

Mais recentemente, este genial e generoso cientista escreveu um livro, relançado após sua desencarnação com o título de “Crítica Ecológica ao Pensamento Econômico”. Sugiro que o leiam!

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