Já vou avisando que este texto vai ser longo. Deu uma trabalheira pra escrever, mas acho que valeu a pena. Espero que também valha a pena ler. É sobre o que EU CONSIDERO como “a irresponsável destruição do Patrimônio Público gaúcho, promovida pelo Governo Sartori”.

Frisei que “EU CONSIDERO” porque tem gente achando que o Sartori está certo, que está salvando o Rio Grande da bancarrota financeira ao promover o enxugamento da máquina pública. Bem, se uns falam que é destruição o que outros dizem que é salvação, parece que tem que discutir a fundo, certo?

Então, vou aos meus argumentos…

Começo citando um post do Luís Nenung (artista dos mais respeitados no Rio Grande, por seu trabalho sempre inovador e instigante como compositor e poeta, na saudosa banda Barata Oriental, no incrível Projeto Dragão e na profundidade inspiradora de “Os The Dharma Lovers”).

Difícil encontrar alguém mais insuspeito para falar de política, pois o Nenung é, reconhecidamente, um cara da paz, muito espiritualizado, sem nenhum vínculo e muito menos apego às disputas partidárias e ideológicas deste mundo materialista em que vivemos.

“QUEM LIGA PARA VELHO, DEFICIENTE, BICHO E ÁRVORE?”

Mas não é um alienado. Sintam o peso da suas palavras ao comentar a recentíssima reforma administrativa que está sendo proposta pelo novo prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior (mudei a estrutura de pontuação, tentando enfatizar os pontos mais fortes do texto):

“… eis que o novo prefeitinho do porto em trapos, MarKezan Jr., tira a patrola da garagem. Agora é sua vez de brincar de Nero. Sai fuzilando pra por abaixo (ele deixou claro que não veio fazer política, veio “limpar a área”) 15 secretarias, numa bomba só. Deve ser competição de malvados com o careca ruminante”. (sobrou pro Sartori ! – comentário meu).

“Entre estas, a secretaria de cuidados ao direito dos Animais… que tem um trabalho sério e importantíssimo; a Secretaria do Meio Ambiente… que nem se fala: a que trabalha acessibilidade e cuidado para quem tenha necessidades especiais.

Mas quem liga pra velho, deficiente, bicho e árvore, não é mesmo, eleitor desinteressado? Operários que só dão despesa! > taca fogo…

… porque, enfim: os números são tudo.”

Não foi à toa que sobrou pro Sartori. Parecem ser exatamente iguais as partituras que estão tocando nosso governador e o Júnior de Porto Alegre: reforma administrativa a toque de caixa, sem tempo pra discutir coisa nenhuma… “porque o Estado está quebrado” … “pra acabar com a gastança”… Parece exatamente igual ao discurso do governo (alguns dizem que é governo golpista) Temer…

É MESMO? VOCÊ TEM CERTEZA?

… e assim se destroem, de uma tacada só, não os empregos (também os empregos) mas, principalmente, estruturas administrativas que pertencem ao povo gaúcho e não a um governo ou outro…

São estruturas que nada produzem? Dizem…

É mesmo? Você tem certeza? A Fundação Zoobotânica, que mantém o Jardim Zoológico em Sapucaia do Sul e o Jardim Botânico, em Porto Alegre, é uma bosta? É um atraso na vida do Rio Grande?

Bem, os grandes meios de desinformação não falaram muito sobre o assunto mas ontem (07 de janeiro), milhares de pessoas foram passear no Jardim Botânico, como forma de protesto contra sua extinção. Milhares!… num sábado de janeiro!… em que não haveria nada melhor a fazer do que ir à praia ou subir a Serra! Milohares! Gente como o Nenung, que não é militante da política partidária, muito antes pelo contrário!

Eles não acham que se pode jogar fora a Fundação Zoobotânica assim, sem discutir, a toque de caixa, em época em que boa parte da população está super ocupada, antes com as festas de Natal e agora com as férias de verão…

E a Fundação Piratini, que mantém a TVE/RS e a Rádio FM Cultura, precisa ser extinta para salvar o Rio Grande?

Bem, não vai pesar muito para salvar o Rio Grande. O próprio governo do Estado informa que o custo desta Fundação corresponde a 0,09 por cento do gasto anual do Poder Executivo. Pra ter ideia do que isto significa, pega um metro para medir um milimetrozinho… Sacou? Ou pense no que significa caminhar menos de um metro para vencer um quilômetro…

TEM GENTE QUE NÃO CONCORDA…

Se é tão insignificante em termos econômicos, deveria ser igualmente desimportante para o desenvolvimento cultural do Estado, certo?

Tem uns intelectuais e artistas aí que não concordam muito com esta última parte. Eles entraram com uma representação encaminhada ao Ministério Público do Rio Grande, pedindo providências frente ao que qualificam como “risco iminente de dano irreversível ao patrimônio cultural e histórico, material e imaterial, à cultura, às artes, à ciência e à comunicação pública.” Não é pouco dano, hem?

Ele dizem que a TVE é a “única emissora de TV aberta com programação infantil educativa no Estado”. Mas isto, para o Sartori e sua turma, deve ser desimportante…

Eles (os intelecutais e artistas) afirmam que a TVE e a FM Cultura “fazem comunicação pública, não governamental”. Quer dizer, elas não têm servido aos interesses ocasionais dos governos eventuais, mas à divulgação de informações de interesse social. Isto, para o Sartori e sua turma, deve ser desinteressante.

Eles (os intelecutais e artistas) lembram que a TVE tem mais de cinco horas diárias de produção local, enquanto a RBS TV, a mais potente emissora do Estado tem menos de uma hora de produção local (e quase tudo centrado naquele jornalequismo, que vocês conhecem bem). Isto, para o Sartori e mais alguns, deve ser preocupante!

Eles (os intelecutais e artistas) ASSEGURAM que o fechamento da TVE e da FM Cultura vai afetar duramente parte da cadeia da economia criativa do Rio Grande, que representa 4,1% do PIB do Estado – R$ 11 bi anuais -segundo a Fundação de Economia e Estatística (isto, para “os mais alguns”, não é nenhuma novidade!)

TEM RAZÃO DE SOBRA PRA FECHAR A FEE

Ah, a Fundação de Economia e Estatística (FEE) também deve ser fechada de acordo com o pacote “salvador” do Rio Grande proposto pelo Governo Sartori.

Bem, preciso dizer a vocês que esta o Sartori tem razão de sobra pra querer fechar. Vejam só, lá trabalham pesquisadores que ficam fazendo contas e estão dizendo que o grande problema econômico do Rio Grande não é o salário dos servidores públicos.

Não?… Como assim?

Pois dois economistas desta FEE, Róber Iturriet Avila e João Batista Santos Conceição, estão divulgando um estudo dizendo que, na real, “a crise das finanças públicas ocorre ao tempo em que há REDUÇÃO de servidores públicos e ELEVAÇÃO das desonerações fiscais”. Quer conferir? Taí o link: http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia%2FA-crise-fiscal-e-dos-servicos-publicos-do-Rio-Grande-do-Sul-elementos-para-o-debate%2F7%2F37106 .

Então, eu fico achando que a gente tinha que poder discutir estas coisas mais e melhor. Tem gente por aí dizendo que o problema do Brasil – o que está quebrando o Brasil e vários outros países no mundo – não é a previdência social, não é o tamanho do Estado…

MAS, SERÁ MESMO?…

Sugiro lerem o artigo que escreveu uma senhora, Maria Lúcia Fatorelli, ex-auditora da Receita Federal, dizendo que o maior problema é a Dívida Pública. Pior, ela diz que a Dívida Pública, além de ser o grande problema das contas públicas, é um mega esquema de corrupção institucionalizado. Taí o link, pra quem quiser verificar: http://www.cartacapital.com.br/economia/201ca-divida-publica-e-um-mega-esquema-de-corrupcao-institucionalizado201d-9552.html .

Mas, será? Então as emissoras de TV, Globo, RBS, etc… não estão informando a gente direito? Sei lá, mas eu fico bem preocupado com estas reformas administrativas a toque de caixa, sem tempo pra gente discutir qualquer coisa, justamente neste período em que todo mundo está com a cabeça longe da política…

… e o Sartori ainda quer acabar com os plebiscitos para autorizar a privatização da CEEE, CRM e Sulgás! Eu gostaria ajudar a decidir, ouvindo, antes, um debate informado (podia ser através da TVE, já que o governo não consegue imaginar utilidade para ela) sobre os benefícios e/ou malefícios que estas empresas trazem ou causam ao Rio Grande.

Enfim, parece que a gauchada não está aceitando esta avalanche, não. Tem gente indo para o Ministério Público e isto está atrapalhando os planos salvadores do governador. Parece que o Rio Grande tinha vontade de discutir estes assuntos todos com maior profundidade…

… e, se o Rio Grande fosse, de verdade, o partido do governador, ele devia ouvi-lo, vocês não acham?

Obs 01: a foto que ilustra este artigo é de Ademir Pires, um dos que foi passear, ontem, no Jardim Botânico para dizer que não aceita seu fechamento, assim, sem discussão.

Obs 02: sempre que me refiro ao “Rio Grande”, entendam que estou falando do Rio Grande… do Sul (o do Norte, parece que é de outro partido).

 

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